CLEMILDO BRUNET DE SÁ

SATURNINO SANTANA: O MESTRE IRREVERENTE

Ignácio Tavares
Por Ignácio Tavares*

Pombal é berço de muitos filhos ilustres. Filhos que se notabilizaram, pelo saber, pela arte da política, ainda, pelos serviços prestados nas diversas áreas do conhecimento humano. Dentre os ícones ilustres, que a história nos legou, invoco neste texto, a figura do saudoso, inesquecível, Saturnino Santana.

Aqui em Pombal, quem não conheceu o mestre Saturnino Santana? Mecânico, eletricista, músico, entre outras coisas mais. Viveu como um homem simples, sem muitas ambições materiais. O pouco que ganhava, dava para manter a família, com certa tranqüilidade. Detestava bajulações, elogios descabidos, mesmo de pessoas amigas ou estranhas, com o propósito de agradá-lo.

Sempre que ia a Pombal fazer-lhe uma visita era-me uma obrigação. Gostava de ouvir suas conversas, assim como as queixas contra algumas pessoas, para as quais havia trabalhado, mas, esqueceram de pagar. Tinha uma memória de elefante. Vicente Farias contou-me que certa vez um freguês mandou consertar um dínamo, que estava dificultando o funcionamento do alternador do seu carro.

O trabalho foi feito com perfeição. O cidadão, falou que depois pagaria o serviço. Tomou chá de sumiço, seja, evaporou-se. Tudo bem, aconteceu que dez anos depois, o devedor, senhor Aristides, com residência fixa em Patos, deparou-se com o mesmo problema, pois o seu caminhão travou o sistema elétrico da mesma forma do outro que Saturnino consertou.

Recorreu a todas as oficinas da cidade de Patos e nenhum especialista foi capaz de solucionar o problema. Assim sendo, não havia outra solução a não ser viajar até Pombal a fim de procurar Satrunino para resolver o problema do seu carro. Assim o fez.

Veio a Pombal e trouxe o dínamo, na certeza de que tudo seria resolvido a tempo e a hora, o que lhe possibilitaria retornar mais cedo à cidade de Patos. Mas, lembrou-se de que devia uma conta ao mestre, em razão do serviço que foi feito há mais de dez anos.

Então antes de ir a casa de Saturnino procurou Vicente Farias. De cara Vicente falou que não mexia com eletricidade. Neste caso, a pessoa mais indicada para solução do problema, era mesmo Saturnino Santana.

Aristides falou: ora Vicente faz mais de dez anos que devo uma conta a ele, por isso tenho certeza de que não vou ser bem recebido na sua casa. Vicente disse-lhe que não se preocupasse, pois, Saturnino estava a passar por momentos de esquecimentos, sintoma do começo de esclerose. Acrescentou: assim sendo, com certeza não vai lembra-se mais da sua dívida, posto que, foi contraída há mais dez anos.

Aristides mordeu a isca. Animado com informação, falou que no outro dia, logo cedinho, levaria o dínamo pra Saturnino dar uma olhada. Dito e feito. No dia seguinte, por volta das sete horas da manhã, Aristides acostou-se ao muro da casa, bem próximo ao portão de entrada. Dessa forma ficou a esperar que Saturnino acordasse pra lhe atender.

Eis que aparece Saturnino. Aristides, com o propósito de ser agradável, falou: isso é hora para um grande mestre acordar? Saturnino ajeita os óculos, olha, reconhece Aristides e responde: pra atender a um velhaco safado igual a você, acho que acordei cedo de mais. Aristides ficou qual uma estátua viva, que só fazia ouvir, pois não tinha nada a falar.

Desapontado retorna a casa de Vicente Farias e fala: ô Vicente, quem foi que disse a você que Saturnino está esclerosado, esquecido? Ora, por conta daquela dívida, ele botou em mim como a vaca botou em mestre Alfredo: sem dó e piedade. Pra completar nem sequer me mandou entrar na sua casa. Esse era o Satrunino Santana, seja, genial, irreverente, sem papa na língua, principalmente, quando falava a verdade.

Eis outra estória contada por Vicente Farias. Não gostava de emprestar suas ferramentas de trabalho a quem quer que fosse. Certo dia um cigano foi à casa de Vicente Farias a fim de conseguir um lima emprestado pra terminar um serviço na sua tenda. Vicente disse ao ganjão que não tinha lima, mas, o vizinho lá da esquina, com certeza tinha.

Era Saturnino o vizinho o qual se referia Vicente. O cigano perguntou a Vicente: como posso chegar até lá? Acrescentou: ora se esse homem não me conhece, como é que pode emprestar-me uma lima? Vicente então falou: faça-se conhecido dele!

O cigano ardilosamente ficou a imaginar, como era que podia apresentar-se como conhecido da família de Saturnino. Completou: fale alguma coisa sobre a família dele. Vicente falou pra o cigano: ele teve um irmão que foi o melhor violonista de Pombal. O cigano perguntou: como era o nome desse violonista? Custódio Santana, respondeu Vicente. Deixe o resto comigo! Retrucou o cigano.

O cigano partiu em direção a casa de Saturnino. Ao chegar, bateu palmas e logo Saturnino apareceu pra ver quem era. Ao ver aquela figura estranha, perguntou: o que é que deseja moço? É o seguinte seu Saturnino: estou precisando de um lima pra terminar um serviço lá na minha tenda, portanto gostaria de saber se o senhor podia me emprestar. Prosseguiu: garanto ao senhor que hoje mesmo eu trago de volta.

Saturnino olhou pra o cigano com ar de reprovação, respondeu: não possuo esse tipo de ferramenta meu senhor. A partir desse momento o cigano pôs em prática a sua estratégia, segundo as informações repassadas por Vicente Farias. Entra em ação: o senhor não me é estranho! O que é que o senhor é de Custódio Santana?

Surpreendido com a pergunta do cigano, o mestre respondeu: ah, era meu irmão. Por sinal já morreu há muito tempo. O cigano devolveu: pelo amor de Deus, não me diga que o padrinho Custódio morreu!! Saturnino, mais uma vez ficou surpreso e perguntou: o senhor conheceu mesmo o meu irmão? Respondeu o Cigano: ora, até demais. Toda vez que a comitiva do meu pai passava aqui em Pombal, era uma verdadeira festa. Como então? Perguntou Saturnino, pasmo sem entender nada do que estava ouvindo.

É o seguinte seu Saturnino: o meu pai tocava violão tão bem quanto o meu padrinho. Assim quando os dois se encontravam, emendava os bigodes, não tinha pra ninguém. Os dois violões só faltavam falar. Entusiasmado com a conversa do cigano, Saturnino chama sua esposa Chiquinha e ordena: traga aquela a caixa de lima.

O cigano escolheu a melhor, entre tantas outras que estavam na caixa, agradeceu, despediu-se, nunca mais apareceu. Vicente Farias, sabedor de toda história, vez por outra tocava no assunto, só pra ver Saturnino comentar aquele desagradável acontecimento.

O mestre, dizia acreditar que Vicente foi o mentor daquela encenação enganosa. Digo isso porque tenho absoluta certeza de que houve alguém que orientou aquele cigano para me aplicar o golpe da lima. Esse alguém só pode ter sido você. Vicente divertia-se bastante ao ver Saturnino embaraçado com lances dessa natureza.

Tem mais. O mestre Saturnino, como músico foi insuperável, em todo sertão paraibano, no manuseio de dois instrumentos: o trombone simples ou de vara e bombardino. Certa vez foi participar de uma tocata em Patos, a convite do maestro da banda local.

Topou o convite, pois era uma oportunidade para ganhar algum dinheiro a mais. À noite, enquanto os músicos estavam a ensaiar individualmente, ele estava a pitar o seu cigarro de fumo, com o olhar fixo na partitura. Não falava nada, apenas observava o desempenho dos demais músicos.

Em razão do seu silencio, o maestro falou baixinho pra o seu auxiliar: esse músico de Pombal até agora não disse pra que veio. Só leva o tempo a fumar e olhar pra partitura. Chegou a hora do ensaio geral. Era um dobrado que Saturnino conhecia muito bem. Logo após o ensaio, o maestro dirigiu-se a Saturnino e falou: maestro seu lugar é este onde estou. Este foi o genial Saturnino, que também como bom músico que foi, toda Pombal e municípios da redondeza tiveram a oportunidade de conhecer e aplaudir a sua arte.

Foi um músico completo. Lia e tocava com uma habilidade impressionante. Era abusado no exercício de suas atividades. Certa vez a banda marchava em direção a Igreja Matriz, capitaneada por Frederico Roque e de repente, em plena caminhada, Saturnino agacha-se e apanha alguma coisa que estava no chão. Provocou um descontrole na marcha, mas lá pra frente tudo se normalizou.

Ao chegar ao pátio da Igreja, Frederico dirigiu-se a Satrunino e lhe aplicou uma reprimenda diante dos amigos. Saturnino irritou-se, ameaçou ir embora pra casa. Frederico então, perguntou: finalmente o que foi que você apanhou no chão? Saturnino tira do bolso um parafuso velho, enferrujado e mostra pra Frederico.

Novamente outra repreensão: como é que pode, você quase parou toda banda por conta de um parafuso velho! Saturnino respondeu: tá vendo aqui esse parafuso velho? Acrescentou: vale muito mais do que certos maestros que eu conheço inclusive você! O riso foi geral.
Saturnino e o irmão Zezinho Santana* 
Este foi o Mestre Saturnino, protagonista de muitas estórias, eivadas de lampejos de irreverências, aparentemente maliciosas, porém inteligentes, sem nenhum toque de maldade. Foi mecânico, eletricista e renomado músico de bandas, como poderia ser também de orquestra de câmara, sinfônica, até mesmo conjuntos regionais ao estilo dos anos quarenta.

Foi sem dúvida um grande Mestre perdido nas quebradas do Sertão Paraibano. Diante dos momentos de alegria que nos proporcionou, enquanto vivo, sem dúvida posso afirmar que Pombal está a dever uma justa homenagem ao filho ilustre, o Mestre Saturnino.

Este texto tem o propósito maior reconstituir alguns lances da vida de um ilustre cidadão pombalense, a fim de que o seu nome, a sua memória jamais seja esquecida por aqueles que privaram da sua amizade. Ademais objetiva ainda, informar as gerações do presente que esse homem fantástico viveu no nosso meio por mais de sete dezenas de anos a prestar serviços de alta qualidade, como mecânico, eletricista, músico, entre outras atividades.

A título de curiosidade pergunto: existe nesta cidade a Rua denominada Saturnino Santana? Perguntar não faz mal, não é?

João Pessoa, 01 de Novembro de 2011.
*Foto arquivo: Verneck Abrantes.
*Economista e Escritor pombalense

BIBLIOTECA DA CÂMARA MUNICIPAL DE POMBAL

Paulo Abrantes
PAULO ABRANTES DE OLIVEIRA*

Hoje, faz um mês, durante a Festa do Rosário, em que o Presidente José William de Queiroga Gomes, com o apoio imprescindível da bancada de Vereadores, inaugurou solenemente, a Biblioteca da Câmara Municipal de Pombal, denominando-a de Professora Maria do Bonsucesso de Lacerda Fernandes, numa justa homenagem a presidente da Academia de Letras de Pombal, instalando-a adequadamente e colocando-a em funcionamento.

Naquele instante, todos os vereadores presentes, usaram da palavra e todos os escritores pombalenses inscritos para o lançamento de seus livros naquela oportunidade.

Convidado, coube-me a honra de usar a palavra na solenidade, e discorrer sobre o auspicioso evento e sobre a vida e a obra da patrona da biblioteca, consagrada professora e poetisa pombalense, Cessa Lacerda, falecida recentemente.

Trago na lembrança de que, naquela tardinha festiva, adentrando á noite, a Rua Cel. José Avelino, rua em que eu morava, fervilhou de convidados, populares e curiosos. Também estava ali concentrado, um número considerável de animados e orgulhosos estudantes da terra aplaudindo o maravilhoso evento, diante de autoridades, á frente a nossa excelentíssima prefeita Pollyanna Feitosa.

Revisando o velho dicionário, biblioteca quer dizer “depósito de livros, lugar onde se guardam livros”. Mestre Aurélio completa: “Coleção pública ou privada de livros e documentos congêneres, organizada para estudo, leitura e consulta”. Concordo com Djalma Carvalho de Melo, escritor alagoano, que a biblioteca “é um patrimônio cultural, uma relíquia e repositório do pensamento universal, em livros. Significa tesouro do saber a nosso alcance, onde estudamos, pesquisamos, aprendemos.”

Digo, por experiência própria, não fosse à biblioteca pública, jamais teria a oportunidade de conseguir um diploma superior. Era lá, que eu tomava livro emprestado da biblioteca do Centro do Tecnologia da UFPB, livros de Mecânica dos Solos, Estrada I e Estrada II, de Cálculos e Topografia, e ainda estudava e pesquisava com colegas na biblioteca Pública do Estado, na rua General Osório, e assim por diante.

Bibliotecas digitais já existem espalhadas pelo mundo afora. Imagino que sua eficácia, em termos de consulta e leitura, jamais poderá ser comparada à das bibliotecas convencionais, do livro papel. Também sofisticados robôs já são capazes de, em tempo recorde, digitalizar títulos, folhear e escanear livros sem danificá-los.
Fundar uma biblioteca, como se fez em minha cidade, na Câmara Municipal, significa ato de patente visão administrativa, de sensibilidade política e, sobretudo, de preocupação com os negócios da cultura. José William de Queiroga Gomes é, sem dúvida, um Presidente de Cultura. Recentemente lendo um artigo escrito por Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras, tratando da obra do falecido José Mindlin, que foi dono da maior biblioteca privada do Brasil, com cerca de 40 mil títulos. Finaliza Scliar: “A biblioteca deveria ser um lugar agradável, acolhedor, onde o ensino da literatura precisa ter como objetivo o trinômio: conhecimento, prazer e emoção”.

Assim, naquele momento de inauguração da biblioteca, presenciamos quatro livros escritos por pombalenses serem lançados solenemente num recinto agradável e festivo. O número demonstra, afinal, que a fundação do velho Ginásio Diocesano em tempos idos, contribuiu, decisivamente, para o surgimento de tantos talentos e intelectuais para essa expressiva produção literária de excelente qualidade já definida pela crítica especializada. Portanto, repito mais uma vez:

José William Q. Gomes
Parabéns, Presidente José William de Queiroga Gomes, parabéns Senhores Vereadores de minha Terra! Pela feliz iniciativa.






*Paulo Abrantes é engenheiro civil e escritor pombalense.

João Pessoa – PB, 30/10/2011.

7 BILHÕES DE PESSOAS, E AGORA?

7 Bilhões
Estamos, neste mês, ultrapassando a barreira dos sete bilhões de humanos em todo o mundo. Ao passo que isso representa um número histórico, também representa um dado bastante preocupante e assustador. A marca nos impõe uma reflexão não apenas sobre os impactos globais, mas, sobremaneira, nos leva a análise de como, particularmente, eu e você nos situamos, e que papel estamos representando nesse universo de 7 bilhões de vidas humanas na terra. É evidente que os problemas enfrentados hoje não são os mesmo do início do século XX.

Apenas para nos situarmos, é imperioso dizer que em 1930 a população humana beirava os dois bilhões. 80 anos mais tarde, chegamos a triplicar esse número. É óbvio que esse crescimento constante e acelerado vem trazendo prejuízos insustentáveis não só para a relação entre pessoas, mas também para a nossa íntima relação com o nosso planeta e o ecossistema. Pequenos gestos pessoais passaram a ter grande significação para a continuidade harmoniosa da vida na terra.

Previsões nos apontam para uma população de nove bilhões de pessoas em 2045, isso levando-se em conta uma suposta retração de crescimento populacional na China impulsionada por um suposto e futuro estrangulamento financeiro daquele país. Claro que nove bilhões de pessoas nos parece, por esta ótica, um número até otimista quando ignora a capacidade de expansão, superação e crescimento econômico de países e continentes. O certo é que nove bilhões de pessoas é um número temível!

A incessante competição por recursos, seja econômicos ou naturais, atingirá níveis preocupantes em todo o planeta. E não me refiro apenas aos recursos de exploração mediata, mas os mais nobres, elementares e básicos como água e alimento.

Some-se a isso que uma corrida desenfreada em busca dessas condições básicas de sobrevivência num universo inflacionado de pessoas, atingirá, frontalmente não apenas a natureza, mas a própria condição do homem, mergulhada num pensamento humano que não tem evoluído na mesma proporção demográfica.

É evidente que todo esse quadro de pressão populacional no mundo constitui, igualmente, enorme desafio político, em todos os seus aspectos, sob pena de estarmos irremediavelmente mergulhados num mundo de risco e insegurança. E o que é pior: em constante ebulição social com imprevisíveis mutações nos valores morais, humanos e até religiosos.

É preciso fechar a torneira.

Teófilo Júnior
Outubro de 2011

ELIAS DANIEL: GRANDE PERCA NO FOLCLORE POMBALENSE

José Ronaldo (foto)
POR JOSÉ RONALDO*

Seu Elias Daniel, homem pacato, doce e sereno, sinônimo da força negra revigorada na energia solar do nosso sertão abrasador. Quando puxava o seu fole de oito baixos conduzia com maestria “Os negros dos pontões” que fazem anualmente o translado do rosário numa bonita procição e que enchem de lágrimas os olhos de quem assiste aquele espetáculo popular vivido a céus abertos, de passos lentos, cabeçinha inclinada para o lado com o peso do tempo sobre as costas caminha em noites calmas pela Getulio Vargas tendo como fundo musical as novenas da matriz do Bonsucesso. Já de bengala na mão e sobre a cabeça o seu chapéu de massa era um transeunte quase que invisível aos olhos desta nova geração mais que deixa um legado cultural riquíssimo para seus amigos, filhos e porque não dizer todos aqueles que queiram beber da sua fonte inesgotável de sabedoria popular.

Acordamos mais tristes é verdade porque o pássaro que enfeitava o bando colorido que pousava no largo da igreja do rosário agora voa sozinho, seu ultimo vôo abrindo as asas para um novo céu com a certeza que cumpriu a sua missão nesta penosa caminhada terrena. Voa seu Elias Daniel, voa embalado nas valsinhas que o senhor tanto tocou, voa conduzido por milhares de anjos que neste momento devem está fazendo o último túnel de varas coloridas e maracás tilintando para festejar a sua chegada.
Elias Daniel
Não foi preciso galgar os degraus do capitalismo para demonstrar riquezas, pois a sua maior riqueza era a humildade, a serenidade e a religiosidade que se fazia alicerce para a sua estadia no meio de nós. Era um Daniel, era um ser iluminado, era um artista rústico que teve o privilégio de subir nos maiores palcos deste estado e porque não dizer deste país, e o que mais nos impressiona era a “primazia” mais que acertada no título do trabalho do cantor e compositor” Luizinho Barbosa” ao denominar este seguimento musical de raízes. Seu Elias era inocente como uma criança, não havia malicia em seu falar nem a ganância fruto da ignorância e perdição dos homens do nosso tempo, pois ao término de cada apresentação sentava-se na espera daqueles que o conduziam sem dizer se quer uma só palavra.

Quantas lembranças me vem a mente neste instante, das nossas viagens para a capital, ao BNB Cultural de Sousa PB, as inesquecíveis FENART e os ensaios no CENTRO LIVRE DE ARTE POPULAR –POMBAL PB. Conheci um Elias pai, amigo, mestre, sereno que transmitia-nos a paz apenas com um simples toque de olhar, um Elias responsável que mesmo já tendo a saúde tão debilitada nunca se negou a empunhar o seu fole para dar seqüência a coreografia dos negros dos pontões numa farra quase que tribal. Voa Mestre Elias Daniel voa e prepara-nos uma valsinha para nos recepcionar na última viagem que faremos para lhe encontrar.

AUTOR: *Zé Ronaldo ( Professor e Artista Popular ).

ELIAS DANIEL: UM VERDADEIRO MESTRE E MENESTREL

Elias Daniel e Maciel Gonzaga
Maciel Gonzaga*

A denominação Menestrel popularmente era uma forma de prestigiar aquelas pessoas de notável sabedoria. Sabedoria popular, aquela adquirida através do cotidiano da vida, da experiência. É relevante ressaltar que se valorizava a sabedoria popular través do conhecimento prático. Tinha-se a vida como escola.

Dessa forma, quero aqui ressaltar o papel relevante que o meu padrinho Elias Daniel Ribeiro – o Rei do Fole – teve na música popular nordestina – o nosso forró pé-de-serra na cidade de Pombal, a partir dos anos 50. Ícone da nossa cultura, “Seu” Elias Daniel era pessoa admirada e respeitada por toda Pombal, expoente do nosso folclórico social e religioso ao longo de décadas, acaba de nos deixar, aos 86 anos de idade. Foi ele, ao lado dos irmãos Severino, Cícero e Antônio e todos os descentes destes, destaque na divulgação do nosso forró através da execução do Fole de 8 Baixos ou no grupo folclórico “Negros dos Pontões”, onde tocou fole por mais de 60 anos.
Aprendi não só a gostar da música e da cultura popular através da influência dos Daniel. Tinha Elias Daniel como um exemplo de homem, pai de família digno do maior respeito. Tanto é que, aos 9 anos de idade por decisão pessoal o escolhi como meu “Padrinho de Crisma”, em substituição ao um figurão da Brasil Oiticica que já havia sido escolhido pela minha mãe Roza Gonzaga. Fiz uma imposição: “Se não for ‘Seu’ Elias o meu padrinho, eu não vou me crismar”. Era muito novo para tal posição. A importância de Elias Daniel na minha vida foi tão grande que, basta dizer que o meu pai José Firmino de Luna ao viajar em 1959 para Brasília – para onde foi e nunca mais voltou – deu a incumbência a Elias Daniel de “olhar pela sua família”. Por isso me tornei um discípulo seu, um defensor e apreciador da história popular, da nossa música e da sua sabedoria. Levei a sério os seus ensinamentos.

Quantas vezes entrei na noite ouvindo as conversas sobre fatos e acontecimentos da vida contados por Elias. Sobre as músicas de Luiz Gonzaga; ouvindo-o executar no seu fole de 8 Baixos o clássico “Xaxaxinho das Alagoas” – que até hoje guardo na memória. Eu criança e ele já idoso. Eram coisas que na época eu não dava importância – lá estava apenas por curiosidade de menino –, mas que na verdade foram a essência da minha vida. Isso me deu maturidade. Até hoje não conheci ninguém que conhecesse melhor o repertorio de Luiz Gonzaga – o Rei do Baião – do que ele. Gostava de conversar, transmitir conhecimentos e assimilar conhecimentos. Sempre me dizia: “Converse sempre com as pessoas; observe sempre as coisas, fale menos e escute mais”.

Em 2010, quando estive visitando Pombal depois de 40 anos de ausência, fiz questão de ir à casa de Elias Daniel. Chorei muito ao abraçá-lo. Ouvi dele um segredo que o mesmo havia guardado por mais de 50 anos: eu tinha outro irmão em Pombal. Disse-me Elias – na presença de Clemildo Brunet: “Não há mais sentido eu guardar esse segredo. Quando seu pai viajou e me pediu para ‘olhar’ por vocês – Roza e seus três filhos – me pediu também para ‘olhar’ por um quarto filho que ele tinha. Mas, me pediu eu não contasse essa história a ninguém. Como eu acho que já estou indo embora, vou revelar esse segredo a você”. Disse-me então quem era o meu irmão, que eu não conhecia.
Então, diante desses esclarecimentos não poderia deixar de mencionar o Menestrel Elias Daniel. Era um verdadeiro mestre. Sonhamos juntos com muita coisa. No entanto, o destino da vida nos colocou em caminhos diferentes. Mas ele estará sempre no meu coração, me ajudando, como força espiritual a seguir lutando para realizar minhas metas de vida. A lembrança dele me motiva a continuar a caminhada da história e da sabedoria popular. A minha homenagem especial ao meu padrinho Elias Daniel e o meu desejo para que ele descanse em paz, pois o Céu está lhe recebendo com uma grande festa. Será sempre lembrado como UM VERDADEIRO MESTRE E MENESTREL.

Natal, 28-10-2011.

*Pombalense, Jornalista, Advogado e Professor. Natal – RN

A EVIDÊNCIA DA MÚSICA BREGA

Clemildo Brunet
CLEMILDO BRUNET*

A conceituação que se dar ao termo brega, diga-se de passagem, é um tanto desconhecida em sua originalidade, tem sido discutida e até mal interpretada. Brega é um gênero musical brasileiro que no pensamento de alguns tem seu significado pejorativo cheio de preconceito. Uma das hipóteses levantadas, é que ele tenha vindo dos prostibulos nordestinos, cuja utilidade era embalar as desilusões amorosas e os romances de aluguel.

Há quem se aventure a dizer que o termo brega tenha sua derivação do “Nóbrega” da Rua Manoel da Nóbrega em Salvador, logradouro público que ficava numa região de meretrício da capital baiana. Outra sugestão provável é que a palavra brega seria originária do Rio de Janeiro como uma corruptela da gíria "breguete” usada com desdém pela classe média para com as empregadas domésticas e que por dimensão tenha vindo também nomear o gosto característico popular.

Por não situar a origem da música brega, alguns críticos chegam a considerar o estilo dos cantores das décadas de 40 e 50 que eram seguidores dos boleros e do samba canção como brega, sendo que na década de 60 a música interpretada por cantores populares como Carlos Alberto, Orlando Dias, Waldick Soriano e outros, foi considerada cafona ou deselegante. O surgimento do movimento da Jovem Guarda com inovações estilísticas dentro do cenário musical que agradou de modo sensível o jovem urbano da época, provocou mudança e foram exatamente às inovações estéticas e radicais como do iê-iê-iê que atraiu o Rock’N’roll estrangeiro, dando-lhe uma roupagem nacional nova, a ponto de revolucionar e transformar num grande fenômeno em comportamento e moda.

Torna-se ainda mais difícil uma conceituação para o ‘brega’, pois na década de 90, ele ressurgiu com novos aspectos, embora menos romântico e mais cheio de ritmos, como são o brega pop e do tecnobrega muito popular no cenário regional do Norte do Brasil, especialmente na cidade de Belém. Não obstante esteja longe de uma definição precisa do que seja ‘brega’, esse estilo musical vem tendo grande aceitação entre os seguimentos das camadas mais populares deste país.

A Paraíba não está distante dessa aceitação haja vista que por iniciativa e idealização do Deputado Estadual Tião Gomes, a cidade de Areia foi sede durante anos seguidos do Festival Brega Areia, obtendo muito sucesso com o evento e arrecadando dividendos para o município, época essa, em que, o parlamentar e sua esposa em suas respectivas gestões foram Prefeitos daquela cidade brejeira.
Dep. Tião Gomes
Em recente conversa que tive com o poeta e escritor José de Sousa Dantas, nosso conterrâneo, por ocasião da Festa do Rosário em nossa cidade, ele me falou da pretensão do Deputado Tião Gomes, apresentar um projeto de Lei na Assembleia Legislativa da Paraíba, instituindo o dia 04 de setembro como o “DIA ESTADUAL DA MÚSICA BREGA” em homenagem ao Cantor e Compositor Eurípedes Waldick Soriano, o “Rei do Brega”, data da morte do Cantor em 2008 no Rio de Janeiro.

Caso o Deputado Tião Gomes consiga aprovação de seus pares isso representará em muito para os cantores desse gênero, constituindo também uma homenagem que se estende a todos eles: cantores, compositores, poetas, músicos, artistas, produtores, fãs e apreciadores da música “brega”, bem como aos demais seguimentos da sociedade e o povo em geral. Bem disse o historiador Paulo César de Araújo: “Os ídolos da música BREGA brasileira sempre viveram perto do coração do público e longe do gosto dos críticos”.

Waldick Soriano um mito, ícone da música brega, um nordestino que valorizou a nossa gente e conquistou o ápice de sua carreira artística com a música ‘Eu Não Sou Cachorro Não’, que o fez conhecido nacionalmente como maior sucesso de sua trajetória artística, que valeu até a versão para o inglês “I’m Not Dog No” pelo cantor cearense Falcão. Waldick cantou e encantou muita gente e se eternizou na música brasileira.

Executado em diversos ritmos a música brega se firmou no norte e no nordeste, permeia pelos boleros, tangos, choros, lambadas, calypsos, sertanejos e outros gêneros, sempre com inovações de estilos, ganhando preferências, conquistando novos espaços, crescendo e alcançando ampla aceitação nos diversos seguimentos sociais e mantendo-se nas paradas de sucessos.

A atriz Patrícia Pilar fez um documentário sobre a trajetória de Waldick Soriano com o título: “Sempre No Meu Coração” e afirmou que: “As Músicas de Waldick me encantam há anos e, com o tempo, fui me apaixonando pelo personagem que ele é”.

Que chegue logo para nós paraibanos, o “DIA ESTADUAL DA MÚSICA BREGA” 04 de setembro e todos os anos, não só nos lembraremos de um dos principais astros desse estilo musical, expoente máximo, emblemático e popular, saudoso Cantor e Compositor Waldick Soriano, mais também dos demais cantores e compositores da música ‘brega’.

Pombal, 26/10/2011

*RADIALISTA, BLOGUEIRO E COLUNISTA

JERDIVAN: OBRIGADO A TODOS VOCÊS...

Jerdivan

Jerdivan Nóbrega de Araújo

Meus agradecimentos a todos que, neste blog, congratularam-se com o meu aniversário. Cheguei lá (ou já cheguei até aqui). Acredito que o pior já passou. Agora é contar as vezes em que o sol nasce e se põe no horizonte da minha vida. Missão quase que cumprida, digo a vocês.

Claro que a responsabilidade aumenta a medida que aumenta a nossa experiência e a expectativa de que a gente não decepcione quem depende dessa nossa vivencia, desse “saber da vida”, se é que alguém sabe lá alguma coisa da vida. Aliás, o bom da vida é não saber o que vem pela frente. É aquela velha história da ‘folha em branco’ que nos é entregue para que cada um escreva a sua história.
Passei de um século para outro e também de um milênio para outro. Pouco do que me prometeram para a “odisséia 2001”, foi concretizado. Foi a minha geração que prometeu não envelhecer e acabou por envelhecer rápido demais, no corpo e na mente: nada de grandes viagens espaciais; de comunicação com Ets; também não descobrimos a cura do câncer e ainda criamos outras doenças para nos matar lentamente.

Também não fizemos diferente dos que estavam no poder quando éramos sonhadores estudantes: Fomos nós, nascidos nos anos 50 e 60, que prometemos acabar com a fome, com a corrupção, mas, somos exatamente nós nascidos nos anos 50 e 60 que perdemos até a capacidade de se resignar com tanta corrupção.

Somos dessa geração que estar ai roubando dinheiro da merenda escolar, desviando dinheiro da saúde e da educação e construindo um pais de sabidos e não de sábios. Bom é daí??? Cheguei e ainda estou aqui e com tempo e experiência e vontade de mudar o mundo, pelo menos meu mundo.
Ainda sou daqueles que preferem matar a minha fome e a fome dos meus filhos com um pedaço de pão, que seja fruto do meu trabalho do que me banquetear com o dinheiro que vai fazer falta a saúde e a educação de velhos e jovens do meu pais. Isso não é demagogia é pratica e realidade Há oito anos gerenciando um orçamento anual de mais de oito milhões reais, o que tenho de herança a meus filhos é a educação que pude pagar para que eles adquirissem, e a muito custo. Se não fiquei rico não foi por falta de  oportunidades”, “oportunidades essa que muitos não deixaram passar” e que hoje, com tanto dinheiro nos bancos não conseguem uma boa noite de sono.

Comemorei meu aniversário com a família e amigos, os presentes e os ausentes. Dentro de cinco anos estarei entrando em uma nova etapa da minha vida e podendo olhar no rosto dos meus filhos e dizer que nada do que sobrou em nossa mesa faltou na mesa de uma criança ou de um brasileiro que agoniza em uma fila de hospital.

Recebi dos meus filhos, como presente, uma festa ambientada nos anos 60. Uma surpresa que me emocionou bastante, principalmente por que escrevo minhas crônicas sempre inspiradas nesta que foi a mais bela época que o Brasil já viveu. Quem viveu os anos 60 sabe do que eu estou falando.
Assim, a vocês que vistam esse blog meu muitíssimo obrigado!

Jerdivan Nobrega de Araújo

VELHOS TEMPOS, BONS TEMPOS!

Genival Torres Dantas
Genival Torres Dantas*

Esse último final de semana não foi muito diferente dos demais até que comecei a ler os jornais de várias regiões e pude verificar o tema do momento, a maioria dos colunistas políticos focando copa do mundo de 2014 e o ministério do esporte, desautorização da FIFA do ministro Orlando Silva, para tratar do encaminhamento da copa, saia justa para a presidente Dilma, decepções, especulações um verdadeiro absurdo para um país que tem pretensões de fazer a melhor copa do mundo de futebol.

E, em falando de copa do mundo e decepções a primeira imagem que vem na nossa cabeça é a foto do goleiro Barbosa, quando do segundo gol do Uruguai na final no maracanã, desolação total, e a frase: “silêncio ensurdecedor”, depois de 61 anos continua a nos lembrar do nosso grande fracasso no futebol, era exatamente 16 de julho de 1950.
Goleiro Barbosa
O Brasil que vinha de duas vitorias espetaculares, 7x1 contra a Espanha e 6x1 nos suecos, nos bastava o empate, e a história nos conta que o mundo desmoronou sobre a cabeça do esquadrão que contou na final com: Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo, Bigode, friaça, Zezinho, Ademir, Chico e Jair, Flávio Costa era o técnico.

Lembrei de uma pesquisa sobre a quinta participação do Brasil em Copa do Mundo, em 1954, quando o técnico Zezé Moreira montou uma seleção para ir à Suíça com os craques da época: Castilho, Djalma Santos, Pinheiro, Brandãozinho, , Bauer, Nilton Santos Julinho, Didi, Baltazar, Pinga e Rodrigues. Mais um fiasco da seleção brasileira, o destaque da Hungria e a Alemanha campeã.
Procurei melhorar o dia, buscando algo para ler, e na internet me deparei com algo mais ameno, entrei no blog do Clemildo Brunet de Sá, lá estava um assunto que me interessou e me fez mergulhar no passado definitivamente, mas, agora, com motivo alegre, embora nostálgico e cheio de fortes emoções: aniversário de dona Hermelinda de Souza Rocha, uma das minhas professoras, da infância e inicio da adolescência, pelas quais tenho profundo respeito e admiração, além da gratidão, pois, se hoje sou um homem com formação voltada para minha família, minha terra e meus amigos, devo aos meus pais e aos meus mestres que foram a base de tudo.

Voltando ao final dos anos 50 e inicio dos anos 60, rascunhos vieram de 1958, quando da copa do mundo na Suécia e a imagem da alegria daquela gente nordestina que tinha como contato com o evento apenas às ondas do rádio, médias e curtas da rádio Clube de Pernambuco, a emissora mais ouvida na minha casa, lembro ainda do Tavares Maciel com seu programa patrocinado pelas Casas Araujo, onde quem mandava era o freguês.
Mas, continuando com copa, o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho, chefiou a delegação que tinha até psicólogo, Vicente Feola como técnico e a seguinte formação vitoriosa, entrando em campo na final com: Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Zito, Didi, Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo.

Começava ali a caminhada brasileira em busca da hegemonia mundial no campo do futebol. Busquei a sequência daquele novo rumo e a confirmação do nosso triunfo com o primeiro título mundial.

No Chile, em 1962, mesmo não podendo contar com Pelé, machucado no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, o seu substituto correspondeu à expectativa gerada nos brasileiros responsáveis pelo bi campeonato, comandados pelo mesmo Paulo Machado de Carvalho, agora tendo no comando técnico o Aymoré Moreira, o bi campeonato foi conquistado por: Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo.
Em 1966 mesmo sendo uma seleção favorita ao tri, na Inglaterra, malogramos diante de Portugal e fomos eliminados com uma equipe sem personalidade, quando o técnico que retornava ao comando não deu um padrão de jogo, Vicente Feola, responsável pela nossa primeira conquista em 1958, não teve fôlego, a pressão dos cartolas era muito grande, o resultado foi um hiato provocado pela eliminação. Na realidade a historia nos relata que efetivamente faltou comando à nossa seleção composta por: Goleiros – Gilmar e Manga; Zagueiros – Fidélis, Djalma Santos, Bellini, Brito, Orlando, Altair, Rildo e Paulo Henrique; Meias – Denílson, Zito e Gerson; Atacantes – Jairzinho, Garrincha, Alcindo, Tostão, Silva, Pelé, Edu e Paraná.

Finalmente chegamos ao ano de 1970, dessa época não há necessidade de pesquisas, vivemos a história dessa copa vendo os jogos pela televisão em preto e branco, a televisão em cores foi implantada em 1972. A seleção comandada por Mario Jorge Lobo Zagallo foi ao México buscar o tri campeonato com os seguintes convocados: Goleiros – Felix, Ado e Emerson Leão; Zagueiros – Brito, Piazza, Carlos Alberto, Marco Antonio, Baldocchi, Fontana, Everaldo, Joel e Zé Maria; Meias – Clodoaldo, Gerson, Rivelino e Paulo Cesar Caju; Atacantes – Jairzinho, Tostão, Pelé, Roberto Miranda, Edu e Dada Maravilha.

Esse foi o primeiro ciclo vitorioso do Futebol brasileiro, depois dessa fase, à grande maioria dos leitores sabem o que aconteceu, estão acompanhando e fazendo a historia desse esporte fantástico praticado e acompanhado de perto pelos brasileiros.

*Pombalense, ex-integrante do Lord Amplificador, atualmente Empresário Industrial bem sucedido em Navegantes –SC.

HERMELINDA DE SOUSA ROCHA, A EDUCADORA!

Clemildo Brunet
CLEMILDO BRUNET*

A Bíblia diz “ou o que ensina esmere-se no fazê-lo” e vai além quando declara entre a diversidade de dons que Cristo concedeu aos homens... “e outros para pastores e mestres”. Bastantes pertinentes tais informações descritas pelas sagradas escrituras, quando nos deparamos com pessoas neste mundo, que de modo voluntário e de maneira extraordinária entregam-se de corpo e alma ao ofício do ensino, exercendo-o com amor e sacrifício no cumprimento de sua missão, fazendo desta um sacerdócio.

Assim aconteceu com a nossa querida amiga Professora HERMELINDA DE SOUSA ROCHA, que neste dia 24 de outubro estará aniversariando alcançando um degrau a mais em sua existência; motivo que alegra seus familiares, amigos e conhecidos. Desde cedo brilhante em sua inteligência e competência veio mais tarde demonstrar versatilidade como mestra e educadora. Aluna exemplar durante todo seu aprendizado nos diversos níveis escolares. Tão aplicada aos estudos, que chegou a substituir sua professora Clesiute Nóbrega Lessa em suas eventuais ausências.

HERMELINDA DE SOUSA ROCHA – filha de João Trigueiro da Rocha e Ana de Sousa Rocha de uma família constituída de oito irmãos: José Trigueiro da Rocha, Hermelinda, Olivia, Almira, Maria, Irinete, Francisca e Terezinha. Nasceu em 24 de outubro de 1924 a Rua Cel. João Carneiro em Pombal, na casa onde hoje reside a família de seu Franscisquinho dos Couros. Seus Padrinhos de batismo foram: Monsenhor Valeriano Pereira de Sousa e Anália Firmino Nóbrega.

Começou seus estudos no Grupo Escolar João da Mata concluindo o primário em 1932. Sua primeira professora foi Marcia Fiuza Marinho e na terceira série Marieta Anselmo. Fez o Curso Madureza (ginasial) em Cajazeiras por correspondência aonde periodicamente ia a aquela cidade sertaneja fazer provas. Concluiu o Curso Pedagógico no antigo Colégio Josué Bezerra. Suas melhores colegas foram: Amélia Alencar, Bilar Silva, Alzira Bezerra, Amauri Bezerra, Lourdinha seixas entre outras.

Hermelinda atuou como professora em diversas instituições de ensino começando em 1942 na cidade de Vista Serrana (Desterro de Malta) onde ensinou por cinco anos. Em 1947 transferida para Pombal veio ensinar no Grupo Escolar ‘João da Mata’ de onde ela guarda boas recordações das alunas que eram suas amigas: Estela Doris, Salete, Sonia Benigno, Berta Lucia e outras. Foram seus discípulos também os hoje já formados: Dr. Jandirson, Dr. Marcus Vinícius, Dr. Carlos Candeia, Dr. Eliseu, Dr Adão, Professor Vieira, Carlos Dunga, Maria do Socorro Gomes entre outros.

Em certa ocasião encontrando-se com a professora Hermelinda Rocha, o Suplente de Senador Carlos Dunga lhe disse: “Na Faculdade eu me aperfeiçoei, mas o que aprendi devo à senhora”. Foi ainda professora na Escola ‘Sociedade dos Pobres Inválidos’ vindo depois a lecionar no Colégio Josué Bezerra, a convite do Pe. Solon Dantas de França. Após determinado período voltou a trabalhar em dois turnos um pelo Estado e outro particular, que tinha como local para dar aulas o salão da Igreja do Rosário e como auxiliares no oficio, as professoras Maria José, Cecinha Benigno e Francisquinha Benigno. Tempo esse considerado por ela de muito proveito pelo o apoio e bondade dos pais dos alunos.

Com a morte de seu pai em 1961, a professora Hermelinda Rocha foi morar em João Pessoa capital do Estado da Paraíba, aonde veio ter sua coroação no setor educacional, lecionando no Instituto da Sagrada Família, instituição dirigida por freiras que lhe davam todo apoio no trabalho que fazia. Regressou a Pombal em 1965. Uma desilusão amorosa de longo e pesados anos havia sido também outro motivo de ir a João Pessoa e voltar à terrinha.
O suspirado e eterno amor de sua vida dos sonhos acalentados dos seus verdes anos, “AFONSO JOSIAS” (foto com ela), finalmente tornara-se realidade e no dia 27 de outubro de 1991, casaram-se.

Hoje Hermelinda pode dizer com certeza que valeu esperar todo esse tempo com paciência e abnegação. E, é com regozijo e júbilo que ela vai comemorar vinte anos de feliz união conjugal neste dia (27) do mês em curso, declarando publicamente: “Posso dizer sem medo de pecar, minha união com AFONSO, completou minha vida, sou feliz e muito feliz”. “Construímos, eu e Afonso, nosso ninho de amor sem olhar a sombra do passado, valeu apena esperar, nunca é tarde para ser feliz”!

Em 08 de março de 2009 a Câmara Municipal de Pombal fez uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, ocasião em que a Professora Hermelinda recebeu o Certificado “Homenagem Especial” do Poder Legislativo Pombalense (foto), forma de reconhecimento aos seus relevantes serviços como mulher, que teve seu destaque na sociedade local.
Nossas felicitações a Hermelinda de Sousa Rocha, a Educadora, pelo seu aniversário (24) e seus vinte anos de casamento (27) do mês em curso.

Pombal 20/10/2011

*RADIALISTA, BLOGUEIRO E COLUNISTA

DIA 23 DE OUTUBRO: MEUS CINQUENTA ANOS

Jerdivan, Aniversariante dia 23 de outubro
Por Jerdivan Nóbrega de Araújo

O Tempo ta se esgotando no cronômetro da minha existência. Aos cinquenta chega-se ao pico para começar a decida, que é tão penosa quanto foi a subida.

Chegar aos cinquenta foi trilhar por caminhos difíceis; foi ver amigos desistindo e ficando para trás, foi ver os filhos chegarem e a esposa partindo, mas também foi saber se levantar, onde muitos desistiriam. Foi bater a poeira e recomeçar em uma nova chance. Assim, aprendi uma verdade: a vida sempre dá um jeito.

Chego aos cinquenta e fito o horizonte em todos seus pontos cardeais e o que vejo é o limiar de uma nova era onde em breve eu não mais estarei e, tão pouco farei falta. Nestes cinquenta anos eu não fui o que quis ser nem tampouco o que queriam que eu fosse. Fiquei na metade desse caminho onde cruzam os sonhos e as realidades da nossa existência e onde nos anulamos para fazer outros felizes.

Não fui religioso nem cético, não fui bruxo nem místico, mas também não me comportei assim para agradar as pessoas em detrimento da minha vontade. Portanto se perguntarem, e hão de perguntar, o que eu fiz da vida que me deram, simplesmente responderei que apenas fiz. Não fiz a diferença, não fiz diferente, mas, também não hostilizei o diferente, não fiz inimigos -, os que tenho se fizeram por si -, não tentei impedir que os amigos se fossem, nem aconselhei aos inimigos para que eles saltassem do abismo, muito embora algumas vezes assim desejei vê-los.

Cinquenta anos não é metade de uma vida, não é sequer uma vida: é apenas uma marcação cronológica, criada por homens que insistem em contar, marcar, somar e multiplicar as suas posses, mesmo que estas sejam apenas o efêmero e intangível tempo.

O tempo voa, se multiplica não se divide, não se prende a donos, não é meu nem é de ninguém. Não são meus estes cinquenta anos que carrego e, mesmo não sendo meus, pesa - me aos ombros e isso basta a humanidade.

Ter a posse, nem que seja do tempo que lhes acabrunha, lhe torce a coluna pende aos ombros, mas, quê, ao final é apenas às vezes em que o planeta terra faz uma volta completa em torno do sol, deixa o homem orgulhoso por ter, muito mais do que por ser.

O tempo só existe se existir um observador, um dono. Nós somos esse observador do peso que prende sobre nosso ombros, muito embora o tempo fuja pelas nossas mãos, como a areia fina apertada entre os dedos.

Quero, no final, estou certo que ele chegará e não tenho mais medo disso, apenas que se faça ao meu redor o silêncio suave dos galhos de uma arvore balançando aos ventos onde, em sua infinita sombra, eu possa sentar e ouvir a minha própria história.

A vida é isso, afinal!

Jerdivan Nobrega de Araújo

CANTATA BRUTA - NA HOMENAGEM AOS 70 ANOS DE W. J. SOLHA

W.J. SOLHA - HOMENAGEADO
Numa realização da Fundação Cultural de João Pessoa (FUNJOPE) e da Fundação Espaço Cultural (FUNESC), a Orquestra de Câmara da Cidade de João Pessoa (OCCJP) apresentará nos dias 29 (sábado) e 30 (domingo) de outubro, às 20h, no Cine Bangüê (Espaço Cultural), um concerto inédito em vários sentidos.

Trata-se da estréia da Cantata Bruta, sobre texto de W. J. Solha, para dois solistas, dois declamadores, sons eletrônicos, coro e orquestra sinfônica. Junto com a orquestra, estarão se apresentando a mezzo-soprano Maria Juliana Linhares, o tenor Edd Evangelista, o ator Walmar Pessoa, a atriz Suzy Lopes e o Coro Sonantis (do COMPOMUS/UFPB), sob a regência de Eli-Eri Moura, direção de palco e iluminação de Jorge Bweres.

O ineditismo começa com o fato de a obra ser uma composição coletiva de seis compositores atuantes em João Pessoa. Os compositores são Didier Guigue, Eli-Eri Moura, J. Orlando Alves, Marcílio Onofre, Valério Fiel, e Wilson Guerreiro. Inédita também é a abordagem da Cantata Bruta, que traz para o palco do Bangüê o tema da violência e da banalidade da vida humana na sociedade contemporânea.
A Cantata Bruta é também parte de uma programação especial promovida pela FUNESC e FUNJOPE, com apoio da UFPB, para homenagear o multi-artista W. J. Solha, que faz 70 anos em 2011. Por dois meses, os seis compositores trabalharam na música da Cantata, cujo texto tem como referência central o premiado livro de Solha “História Universal da Angústia”.

Complementando a programação, no sábado, dia 29, às 19h, antes do concerto, será inaugurada a exposição “Waldemar José Solha: O Tempo Não Pára”, com quadros novos e antigos do artista, no hall do Cine Banguê do Espaço Cultural. A exposição tem como curadores Maurise Quaresma, Diretora da Galeria de Arte Archidy Picado, e Sidney Azevedo, Coordenador de Artes Plásticas da FUNESC. A exposição também contará com a colaboração dos restauradores Fernando Diniz e Dulce Enriques.

Já no domingo, dia 30, às 18h, haverá na Sala Verde do Espaço Cultural um Bate Papo Literário com a presença do próprio W. J. Solha. A idéia é fazer um encontro informal com o autor, no qual estarão presentes, como debatedores, o jornalista e poeta Astier Basílio, o Coordenador de Literatura e Memória Cultural da FUNESC Archidy Picado Filho, e o jornalista Walter Galvão, Editor Geral do Sistema Correio de Comunicação. No Bate Papo a audiência poderá participar formulando questões diretamente a Solha.

A programação se encerra com a reapresentação da Cantata Bruta, às 20h, no Cine Bangüê, após o debate literário. Toda a programação tem entrada franqueada ao público.

ESTÃO TODOS CONVIDADOS!

eli-eri moura

POMBAL: ENTARDECER NA RUA DE BAIXO

Jerdivan N. Araújo
*Jerdivan Nóbrega de Araújo

Quando eu era criança gostava de me deitar no chão e observar as estrelas na escuridão do céu de Pombal. A cada estrela cadente eu fazia um pedido que não ia além de ganhar um carrinho de plástico ou daqueles que fazíamos de lata de leite Ninho. Desejava, ás vezes, que meu pai trouxesse, no final da tarde, um Pirulito caseiro, destes que se vendiam de porta em porta; eram trocados por garrafas, meia garrafas e litros e vinham enrolados em papel de embrulho, que não largava do doce, nos obrigando a comer com “papel e tudo”.

Os meus finais de noite, quando criança, sendo eu o menor entre os quatros filhos, e numa época onde não existia a televisão, era apenas de se sentar na calçada de casa e ouvir as conversas dos vizinhos e parentes que, todas as noites chegavam para longas prosas, aproveitando ao máximo o vento frio que soprava até mais tarde.

O primeiro a chegar era “nego” Cândido Benigno que pedia uma cadeira de balanço e ali ficava com seu mascar de fumo até a chegada dos demais: “seu” Genésio, Zé Martins, Mestre Álvaro, irmão de Cândido, Zé da Viúva, Joãozinho de Chica, com sua tosse impertinente, Natercio, Godor, Maurício de Raimunda, Zé de Dorsim, Crocodilo, Seu Zequinha da Maniçoba, Chio de Lourdes, Cizenandro, seu Bôbo e tantos outros.

Meu pai chegava em casa poucos minutos depois do toque da sirene da Brasil Oiticica. Pegava um galão com duas latas de “querosene jacaré” e ia até o rio, a não mais do que um quilômetro de distancia da nossa casa, buscar água. Geralmente dava três viagens, as quais eram todas seguidas por mim.

O corredor do rio começava entre a casa de dona Nóca, tia de João Maria, esta do lado direito. Do lado esquerdo, a casa de Seu Joaquim que tinha uma filha deficiente mental de nome Nedina. O trajeto era feito por um estreito corredor ladeado por cercas de arames farpados, cobertos por plantas do tipo Melão de São Caetano, Cajazeiras, Aveloz e duas Oiticicas, que separavam o capinzal de Delmiro Inácio da “roça” de Mila. Ao final do corredor, já sombreando as águas do rio, um pé de Mariza, ou Umari Bravo, antes deste um grande trapeazeiro. Certo dia indaguei ao meu tio Ignácio se ainda existiam estas plantas naquela região. Ele me informou acreditar que, das duas, infelizmente o trapiazeiro já estar extinta e que, ele até andou prospectando algumas sementes para ver se salvava a espécie, mas, sem sucesso.

O marizeiro dá um fruto de nome popular mariza, que é uma espécie de amêndoa. Na ultima viagem com os galões d´água, meu pai catava algumas marizas para cozinhar, como se faz com o caroço de jaca e, nestas prosas nos inícios de noites eram saboreadas pelos visitantes.

Enquanto os mais velhos conversavam nas calçadas as crianças se divertiam no meio da rua. Os meninos brincavam de “bode guerrou”, “bizurico” e outras nomenclaturas hoje desconhecidas.

Lembro do grito de guerra;

“Bode guerrou

E guerreou
Lá na casa de Godô”

Já as meninas se divertiam com “cantigas de rodas” e “queimado” ou simplesmente se sentavam em separadas para contar histórias só delas.

Na calçada da minha casa as conversas variavam de acordo com os assuntos que rolavam na cidade: política, chuvas, etc... muitas das vezes era o rádio Motorola de mestre Álvaro, sintonizado na “Hora do Brasil” que dava o mote.

“Nego” Cândido era também o último sair. Cético, alardeava que não haveria inverno no ano seguinte; mestre Álvaro descordava e garantia a sua vazante de arroz á sombra das cajazeiras lá na “Outra Banda” e assim a prosa ia até tarde da noite.

Alem do corredor que dava no rio, ali por trás do Grande Hotel, a nossa rua era caminho obrigatório para lavadeiras, agricultores; tropas de jumentos que transportavam água; bêbados desocupados; e, tudo mais que se dirigia ao rio, seja para trabalho seja apenas por lazer.

Ao início da tarde as casas que ficavam “de costa” para o oeste começavam esconder o sol e sombrear as calçadas, momento em que chegavam as crianças para brincar de “bola de gude”, “derrubar castanha” apostando “dinheiro de nota de cigarro”, como: Candelo, Beto, Zé Willame de Cabina, Espeto, Pacote, João Maria negro Boró, Genario, Edmundo, Geradinho de Expedita e meus irmãos Zé Tavares, João Neto e Jerdi. Também chegavam os adultos com seus tabuleiros de ludos ou baralhos para jogar relancinho e suéca apostando dinheiro de verdade.
Casario da Rua de Baixo
Assim, a tarde da minha infância ia caindo no horizonte perdido da Rua de Baixo a espera que a sirene da Brasil Oiticica tocasse, liberando os retintos operários que iam se lavar nas águas do Rio Piancó.

A sirene da Brasil Oiticica também trazia para casa o meu pai e com ele a noite, para que eu voltasse a me deitar na calçada de casa para observar as estrelas na escuridão do céu de Pombal, até que os proseadores chegassem para contar as lorotas da lida diária e as crianças mais velhas voltassem correr no meio da rua com suas brincadeiras que eu, de tão pequeno que era, apenas observava da porta da minha casa.

Já nos domingos...

Nos domingos a rotina não era tão deferente. Os moradores da Rua de Baixo viviam, em sua maioria de “bico” e, não tendo emprego fixo levavam sua rotina se aproveitando das poucas sombras, face não ser a nossa rua arborizada, para fugir do calor.

Vez por outra a minha mãe organizava, nos finais de tarde dos domingos, rifas de galetos assados. As pessoas se aglomeravam para concorrer a iguaria e, ao receber a prenda se afastavam para degustar na sombra de uma acácia que existia no recuo da nossa rua, residência de uma senhora de nome dona Tereza ou Tetê.

Já os mais jovens jogavam bola no campinho de fronte a casa de dona Maloura e por trás do Posto de Puericultura.

Passava o “gaso” vendedor de balaio de vime, passava o vendedor de carvão, passava o vendedor de água, passava o vendedor de pirulito e quebra queixo... De volta das farras nas ingazeiras do rio passavam os bêbados e vagabundos... Passavam os que vinham da matinê do Cine Lux... Passavam os que iam passear nas praças centrais...

...Éh!!! todos passaram.

*Bacharel em Direito, Escritor e Pesquisador da História de Pombal.

A CRIANÇA QUE FUI... A CRIANÇA QUE SOU...

Clemildo Brunet
CLEMILDO BRUNET*

Todos nós fomos criança um dia ou ainda somos em alguns aspectos de comportamento. Agimos como adultos, mas também, muitas das vezes estamos nos portando como criança. Determinado dia Jesus falou para adultos de sua época, que serve também de ilustração para nós nos dias atuais. Ele disse: “Mas a quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros: Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações e não pranteastes”. Mt 11:16,17.

A questão levantada não era nada mais do que a dubiedade das pessoas no modo como Jesus cumpria sua missão em detrimento ao que seu precursor pregara. João Batista não comia e nem bebia vinho, taxaram-no que tinha demônio e de Jesus disseram: ...”Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores”!

A criança que fui com suas múltiplas manifestações já não é a criança que sou. Senão vejamos: O mundo tem invertido os valores. A criança de tempos passados recebia a educação de seus pais, que a orientavam para vida, ensinando os bons modos, a ética e o respeito pelos idosos. A criança que fui tinha a criatividade de ser mentora de seus próprios brinquedos. A menina fazia sua boneca de pano, construía em seu mundo infantil uma casa, desempenhava o papel de mãe, enfermeira e cozinheira, na singeleza dos instrumentos que utilizava como símbolos do lar.

A criança - menino que fui era interessada em jogar bola, fazer carrinho de mão, andar de velocípede ou bicicleta, brincar com bolas de gude, girar pião etc. A brincadeira inconsciente era prática de exercícios. Um pneu velho ou um tonel vazio serviam de instrumentos para corridas. Correr empurrando o pneu velho ou fazer aposta pra quem ia mais longe em cima do tonel vazio.

A criança que sou foi mal orientada, exigente com pais, tudo que ver quer comprar, esperneia por um brinquedo que quer adquirir ainda que os pais não possam dar. Não respeita, nem dar-se ao respeito, nem tão pouco considera os mais velhos, porque nunca aprendeu os bons costumes.

A criança que fui me faz lembrar que brincar era mais solto e leve, pois o espaço da rua era nossa predileção.

A criança que sou vive presa em áreas apertadas dos condomínios, não existe campos de futebol, só lhe sobra às quadras de escolas e de clubes.

A criança que fui qualquer objeto servia para diversão. Um par de rolimãs usado era fácil de achar em uma oficina mecânica e a madeira do assoalho pra fazer o carrinho rolar se conseguia sem dinheiro em qualquer madeireira.

A criança que sou é ter como brinquedo o vídeo game, a televisão substituindo a família, a internet como instrumento altamente perigoso para se relacionar. A criança que sou vive o tempo das competições sem se importar com os meios utilizados, entregues a babás para abafar o choro e evitar questões de conflitos com os pais.

Conclusão:

Estou entre a cruz e a espada, pois o avanço tecnológico desses tempos pós-modernos, me deixa na dúvida – ‘já não sei se sou a criança que fui... ou a criança que sou...’

Pombal, 12/10/2011

*RADIALISTA, BLOGUEIRO E COLUNISTA

CÍCERO DE ERICE

Ignácio Tavares
Ignácio Tavares*

Quem não conheceu Cícero de Erice? Como esta figura bizarra veio parar em Pombal? Não sei. A sua cidade natal ninguém sabe. Cícero, ao longo da vida, foi uma figura de origem desconhecida, que apareceu aqui na terrinha.

Até hoje ninguém sabe dizer de onde veio. Sempre que alguém o interpelava sobre o seu lugar de origem, vagamente, respondia: sou do brejo. Da mesma forma, sobre seus pais, irmãos, silêncio absoluto. Enfim, Cícero era mesmo um estranho no ninho de origem ignorada.

Às vezes dizia que na sua infância morou lá pras bandas do sul. Quando a gente perguntava, em que estado do sul viveu a sua infância, ele respondia: no sul de Pernambuco. Todos esses desencontros deixavam as pessoas cada vez mias desinformada sobre a verdadeira origem de Cícero.

Conheceu Erice, não sabemos como. Erice descende de escravos pertencentes à família Cardoso D’Arão. Os seus irmãos foram embora de Pombal, mas preferiu ficar atrelada a nossa família até os últimos dias de sua vida.

Casou-se com Cícero, mesmo sabendo dos seus momentos de altos e baixos na convivência do dia-a-dia. Do casamento nasceu José, o famoso Karin, que foi por muito tempo lateral do São Cristóvão, Oziel, Neusa, Creusa e Iremar, o mais moço de todos.

Erice vivia a prestar serviços domésticos em casas de pessoas da família. Cícero trabalhava como prestador de Serviços eventuais diversos. Noutras palavras, vivia de bicos, seja trabalhava dia sim, dias não. Era uma figura irreverente, excêntrica, por isso indiferente às formalidades da vida.

Trabalhou algum tempo com o meu pai. A relação de trabalho entre os dois era atípica, pois não havia uma remuneração fundamentada no justo valor. Na prática essa relação fazia transparecer uma espécie de mais valia as avessas. Quero dizer que Cícero recebia uma remuneração muito acima do valor que era capaz de gerar como trabalhador rural.

Meu pai o tolerava porque era seu amigo, ademais, admirava suas peripécias. Isso mesmo, o meu pai divertia-se a valer com as suas artimanhas. Em pleno horário de trabalho inesperadamente retirava-se com a justificativa de que ia tomar água e por lá ficava. De tanto demorar, meu pai ia até a oiticica, onde se localizava o rancho, e flagrava Cícero a dormir a sono solto.

Pai o chamava: “ô Cícero! ô Cícero! Ora, ora, voce está dormindo ô rapaz, logo agora, em pleno horário de trabalho”? Cícero abria os olhos e se justificava: ora Zeca, após o almoço você sabe que tenho direito à uma hora de sono. Não é verdade? Assim sendo quero dormir mais um pouquinho pra ficar mais disposto quando acordar. Completava: “você vai findar me matando de tanto trabalhar”! Meu Pai ria e deixava Cícero prá lá a curtir o habitual sono preguiçoso.

Ana, minha avó, na época da cata do algodão contratava um exercito de mulheres. O ganho era por quilo catado. Cícero aparecia e se oferecia pra fazer parte do grupo. Ana já conhecia muito bem a preguiça de Cícero. Aceitava, mas, impunha algumas regras para evitar que ele contaminasse o grupo com seus lampejos de preguiça. Trabalhava separado das mulheres. No final da tarde, as catadoras pesavam o algodão, cujo peso, em média girava em torno de cinqüenta quilos por pessoa.

Cícero chegava mandava pesar o algodão que mal dava vinte quilos. A balança era uma haste pendurada numa das linhas da casa de farinha, da qual desciam quatro cordas de cada lado que davam sustentação a dois lastros de madeira. De um lado eram postos os pesos e do outro os sacos de algodão. Para pesar o algodão usava pedras equivalentes a um quilo, dois, cinco, dez, vinte até cinqüenta. Eu ajudava a minha avó a fazer as pesagens.

Os pesos eram corretos. Mas Cícero depois de constatar a pesagem do seu algodão, ficava a resmungar baixinho para que minha avó não escutasse. O que dizia então? Algo que minha avó não podia escutar, assim como: “essas pedras de Sá Ana escondem o peso do meu algodão”. Continuava a falar: “vejam só, Lolinha catou cinqüenta quilos e eu só catei vinte”?

A minha avó soube das críticas de Cícero e reagiu ao seu modo: “olhe aqui seu preguiçoso você não precisa mais vir amanhã, pois está dispensado, viu”? No outro dia Cícero era o primeiro a se apresentar para mais uma jornada de trabalho, como se nada tivesse acontecido.

Certe vez o empresário do setor de panificação, o senhor Napoleão Brunet de Sá, proprietário da Padaria Vitória, estava a precisar de uma pessoa pra ajudar na remoção de sacos de farinha de trigo, entre outros serviços que exigia o mínimo de força física. Contratou Cícero. Seu Napoleão a cuidar de uma coisa e outra não teve tempo para prestar atenção ao que Cícero estava a fazer. De repente, correu o olho e viu Cícero sentado com um saco de bolacha entre as pernas.

Ora, seu Napoleão reclamou na hora: “olhe aqui Cícero eu contratei você foi pra trabalhar e não pra comer bolacha”!! Cícero de boca cheia, sequer podia falar, engoliu as bolachas e reagiu: “ah, crente miserável, não faz nem duas horas que eu como bolacha”! “Desse jeito não trabalho aqui não, viu”?

Seu Napoleão completou: “o que foi que você fez até agora a não ser comer bolacha? Pode ir embora, quem não quer você aqui sou eu, ta certo”?. Conclusão, foi dispensado antes de assumir o emprego. Pra Cícero, um emprego a menos ou a mais, pouco lhe importava. O que gostava mesmo era vagar por aí na busca do prazer de viver sob a lei do menor esforço.

Vez por outra vinha a João Pessoa e nos procurava na Casa Universitária. Eu e Valtécio, sempre que Cícero aparecia conseguíamos um lugar pra arrumar a sua rede. De tanto se hospedar na Casa Universitária tornou-se querido no meio estudantil. Com muitas reclamações fazia os pequenos serviços na Casa Universitária quando era solicitado para tal.

Éramos 42 moradores e todos gostavam de Cícero. Vez por outra almoçava com a gente no restaurante universitário. No final de semana saia à procura das famílias de Pombal, que moravam em João Pessoa. Ali almoçava, jantava, ainda amealhava alguns trocados.

Certa vez falou que ia à casa de Dr. Lourival que morava na Torre. Não sei como chegou até lá. Foi bem recebido, almoçou e conversou muito. Lá pras tanta dona Lourdes falou: “Cícero já que você está aqui vamos fazer uma limpeza no muro”?

Segundo ele, passou a tarde todinha tirando lixo do muro e quase que não acabava. Terminado o serviço dona Lourdes pagou e liberou Cícero. Quando ia saindo, lembrou-se que estava na hora do jantar. Adorava uma boca livre, principalmente quando visitava os conterrâneos.

Assim sendo aproveitou o momento e falou: “ ô dona Lourdes será que vou sair daqui com fome sem comer nada”? Indagou Cícero. Dona Lourdes riu da esperteza de Cícero e respondeu: “não senhor, vou preparar uma sopa pra você, tá bom”? Pois é, Cícero comeu alem do limite, a suculenta sopa preparada por dona Lourdes. Acontece que Cícero tinha uma intolerância a gordura, por conta de uma insuficiência hepática, em razão dos porres de cachaça, que costumava tomar.

Assim por volta de sete horas da noite, estávamos eu e Valtécio a conversar na porta de entrada da Casa Universitária. À distancia avistamos Cícero a caminhar, a passos largos, gesticulando com as duas mãos, como se estivesse a reclamar de alguma coisa.

Quando nos viu foi logo dizendo: “esse menino, eu sei que dessa vez não escapo. Avise a Erice que eu comi uma sopa na casa de Dr. Lourival e botaram veneno dentro”. Se eu morrer vocês avisem a Erice pra ela tomar as providencias.

A azia que Cícero estava a sentir era de fazer pena. Ia num canto ia noutro, respirava fundo e nada da azia passar. Antônio Rodrigues, na época estudante de medicina, de saudosa memória, foi lá no seu quarto trouxe uns comprimidos de Kolantyl Gel deu-lhe com a recomendação de tomar um de duas em duas horas. Deitou-se na rede, puxou um sono, em pouco tempo levantou-se a rir de felicidade porque a azia havia passado.

Dada a alegria de Cícero depois de curar-se da azia perguntamos: e agora Cícero, a gente pode dar aquele recado a Erice? Não de jeito nenhum, dona Lourdes pra mim é uma Santa. Deus me livre, jamais vou pensar nessas coisas. Continuamos: e agora você vai a casa de dona Lourdes pra comer mais uma sopinha? Não, Deus me livre. Nunca mais vou comer sopa na minha vida. Meu negócio agora é feijão com carne e arroz.

Foi a última vez que Cícero foi a João Pessoa. A doença do fígado agravou-se, levando-o a óbito. Morreu da mesma forma que apareceu. Até hoje ninguém sabe de onde veio. Da mesma forma morreu, ninguém soube, ninguém viu.

Poucas pessoas amigas, com certeza do Cacete Armado, foram a sua casa para assistir à sua última quimera. Dos que se faziam presentes, alguns, conversavam a lembrar as peraltices do falecido, enquanto esposa Erice, a filha Creusa pranteava a sua morte.

Eu mesmo soube do seu falecimento muito tempo depois. É isso aí. Cícero veio não sei de onde, enterrou-se não sei aonde. Nada faz lembrar sua presença em Pombal. Com certeza os dois filhos remanescentes, Creusa e Iremar guardam boas lembranças do saudoso pai que detestava trabalhar, mas, morria de felicidade quando era amparado por pessoas amigas.

De certa forma, apesar dos pesares Cícero continua entre nós. Mas, como costuma acontecer com os mortos sem expressão social, ninguém sabe onde foi enterrado, posto que os administradores do Campo Santo, sequer se dignaram fincar uma cruz de madeira sobre a sua cova rasa com modestos dizeres: ¨aquí jaz o mirrado corpo de Cícero de Erice. Viveu na pobreza, portanto, sem eira, sem beira. Por isso foi simplesmente Cícero de Erice e nada mais¨.

João Pessoa, 12 de Outubro de 2011

*Economista e Escritor pombalense