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HOMENAGEM DA ALPB A CLEMILDO BRUNET ENTREGA DA MEDALHA "EPITÁCIO PESSOA" em 10-06-2010

ONDE ANDA O MEU BAIÃO?

Maciel Gonzaga
Por Maciel Gonzaga*

O baião é um ritmo musical nordestino. Segundo registra Câmara Cascudo, foi na década de 1940 que o baião tornou-se popular, através dos mestres Luiz Gonzaga (que ficou conhecido como o “rei do baião”) e Humberto Teixeira (“o doutor do baião”). Sua temática é o cotidiano dos nordestinos e as dificuldades da vida. O primeiro sucesso da dupla veio com a música homônima “Baião”, cuja letra diz: "Eu vou mostrar pra vocês / Como se dança o baião / E quem quiser aprender / É favor prestar atenção." e "(…) o baião tem um quê / Que as outras danças não têm".

Luiz Gonzaga logo passou a dominar o gosto popular com outros sucessos no estilo do baião, a ponto de jornais da época registrarem que o ritmo tornara-se a "coqueluche nacional de 1949" (segundo a revista Radar) e era decisiva sua influência "na predileção do povo" (jornal Diário Carioca). Os maiores sucessos foram: Asa Branca - Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; Baião de Dois - Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; Mulher Rendeira – Zé do Norte; Boi Bumbá – Gonzaguinha e Luiz Gonzaga; Baião da Penha - David Nasser e Guio de Morais. A partir da década de 1950, o gênero passou a ser gravado por diversos outros artistas, dentre os quais Marlene, Emilinha Borba, Ivon Curi, Carolina Cardoso de Menezes, Carmem Miranda, Isaura Garcia, Ademilde Fonseca, Dircinha Batista, Jamelão, dentre outros. Se Gonzaga era o "Rei do Baião", Carmélia Alves era tida como a "Rainha", Claudete Soares a "Princesa" e Luiz Vieira o "Príncipe". Após um período de relativo esquecimento, durante a década de 1960 e a seguinte, no final dos anos 70 ressurgiu com Dominguinhos, Zito Borborema, João do Vale, Quinteto Violado, Jorge de Altinho e muitos outros. O ritmo influenciou ainda o tropicalismo de Gilberto Gil e o rock'n roll de outro baiano - Raul Seixas. Este último fundiu os dois ritmos, criando aquilo que chamou de "Baioque".
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Mas, por ande anda o meu baião? Aquela nossa música que andou o mundo inteiro e voltou; saiu falando de seca, voltou falando de amor; decantava o salão de terra batida, o Sertão nunca esquecido. Um amigo de Caruaru me manda esta semana um CD do mestre João Silva com o título “Sertão Puro”. Para quem não conhece, João Silva é um dos maiores compositores brasileiros e para nossa felicidade, dedicado totalmente ao forró tradicional. Foi parceiro de composições com Luiz Gonzaga. No disco, entre outras pérolas lá está uma – “Onde Anda o Meu Baião”. Na extraordinária letra João Silva faz uma indagação: “...Sertão! Que Nordeste é esse?/ Sua a cultura foi para o espaço / Eu quero é forró de 8 baixo / Que a gente se acha e eu me esbagaço”. Uma letra que cabe reflexão.
João Silva
Aqui faço questão de citar o magno Juiz de Direito pombalense Onaldo Queiroga que, em muitos escritos, tem demonstrado uma grande preocupação com a tradição nos deixada por Luiz Gonzaga. Data vênia, precisamos juntos continuar lutando em defesa do baião batido. E indago: O que fizeram com o meu xaxado? Quem está preocupado em manter esta tradição? Os atuais compositores nordestinos esqueceram do baião?. Gente, precisamos defender a cultura nordestina, lutar para que o Poder Público possa garantir intervenções práticas através de políticas públicas para garantir os direitos dos cidadãos de acesso ao protagonismo cultural. Cultura faz parte da essência do nosso povo, no sentido da afirmação de sua identidade e pertinência à sua região, mantendo-se viva na memória as nossas próprias origens.

É possível dizer que não se vive do passado, se vive do presente e do futuro. Porém, para se compreender as transformações pelas quais a cultura de um povo tem passado no decorrer dos tempos, se faz necessário defender as nossas tradições. Não queremos pregar o isolamento cultural, se fechando em guetos. Devemos estar abertos e receptíveis ao novo; conhecer e experimentar as outras culturas como forma de valorizar a diversidade cultural dos povos e como enriquecimento cultural. Conhecendo e defendendo as nossas tradições, poderemos compreender a importância de mantê-las viva na memória, protegê-las e valorizá-las como forma de preservar o que somos, nossas características, nossa identidade.
Baião do Nordeste
A partir dessas considerações, acreditamos que a manutenção do nosso baião como música tradicional nordestina é um tema relevante que pode levantar reflexões e discussões que possam vir a contribuir com o despertar da consciência coletiva sobre a importância das raízes culturais nordestinas para a preservação de nossa história.

*Jornalista, Advogado e Professor. Natal RN.

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