CLEMILDO BRUNET DE SÁ

“DE JOÃO PARA JOÃO”: mais uma superação de Tarciso

Jerdivan Nóbrega de Araújo
Jerdivan Nóbrega de Araujo*

O assassinato de João Pessoa foi um desses eventos histórico que concedeu ao morto, na versão oficial, a flâmula de herói político e reformador, ao tempo que para o coronelato este não passou de déspota.
Na outra da ponta dessa mesma trama temos João Duarte Dantas. Um homem apaixonado que teve a sua honra e a sua intimidade violadas pela imprensa oficial do Estado, que o perseguiu e o atormentou ao ponto dele resolver lavar a sua honra com sangue, em um episodio que levou o Brasil  à chamada “Revolução de 30”.
No meio desse triangulo temos ainda figura, da professora Anaíde Beiriz, que mantinha um relacionamento amoroso com João Dantas, e
que os historiadores e os movimentos feministas conseguiram resgata-la dessa trama ainda na década de 1980, deixando claro que na história, se houve uma vítima, essa foi à professora Anaíde Beiriz.
Foi nesse entrelaçamento de fatos que o produtor, teatrólogo e escritor Tarcísio Pereira, com o seu magnifico trabalho “De João para João” adentrou os bastidores da história, trazendo para um primeiro plano os fatos que antecederam ao assassinato de João Pessoa naquele fatídico 26 de julho de 1930.

       Muito embora o diálogo entre os dois seja produto da imaginação criativa de Tarcísio Pereira, os relatos são baseados em documentos reais como, por exemplo, às cartas escritas por João Dantas a João Pessoa e matérias publicadas nos Jornais “A União”, e” do Comercio” de Pernambuco a época dos acontecimentos.
O expectador vai se surpreender, não apenas com a desenvoltura dos atores, o cenário e a música, porém, muito mais com forma que Tarciso encontrou para contar uma história que já fora por demais contada nos livros, teatros, cinemas e salas de aulas, porém de uma outro ângulo de visão
Sem buscar um culpado, sem demonizar ou endeusar os protagonistas da história Tarcísio  consegue fazer uma “lavagem de roupa suja” entre os dois personagens históricos, 86 anos depois do ocorrido,  não ignorando os fatos históricos, mas,  centrando a trama em outro foco, de forma que ao  final do espetáculo João Dantas continua sendo o mesmo João Dantas e João Pessoa o mesmo João Pessoa que a história nos revela do ponto de vista politico.
O que vai mudar é a percepção do expectador em relação aos dois “homens” - João Dantas e Joao Pessoa -,  e não aos  personagens históricos, já que Tarcísio Pereira explora, e isso é a novidade e a beleza do espetáculos, os  seus dramas pessoais.
Na encenação  nos  deparamos  com o lado humano e atormentado dos dois personagens, com seus infernos pessoais, problemas familiares, doenças, fraquezas, solidão, paixões secretas  e tudo mais que é inerente a qualquer ser humano, sejam eles figuras públicas ou não, mas, que a história oficial normalmente se recusa a revelar a publico, principalmente os demônios dos personagens mais relevantes que saem da vida para ganhar as páginas dos livros de história, e não podem ser maculados.
Ao final do espetáculo não há vencedores nem vencidos. Não há também culpados e tampouco inocentes: os dois  continuam  sendo o que eram antes.
A interpretação de Tarcísio Pereira (como João Pessoa) e de Flávio Melo, (como João Dantas) é simplesmente primorosa. Os atores se agigantam em cena, ocupando cada espaço do palco, com entonação de voz e dicção que ecoam por todo o teatro.
Até a coreografia dos atores foi  pensada ensaiada em detalhes, para que o espectador pare a respiração e ao  cair do pano, anteceda um silêncio na plateia para  em seguida  vir a exclamação:
-Uau!!!!

*Advogado, Escritor pombalense e Pesquisador

Um comentário:

Silvio Calaço disse...

Este UAU! no final pegou mal, Jerdivan Nóbrega. Falando sério, agora, foste cirúrgico na compreensão do texto, do espetáculo, dos atores emfim. Texto criativo de diálogos nunca dantes acontecidos que trazem a dramaticidade que o relato da história exige e um espetáculo glamouroso feito por músicos, fotógrafos, cenógrafos, maquiadores e, em cena, dois atores que surpreendem um ao outro e os dois ao público a todo instante. A Paraíba está de parabéns. O teatro paraibano está de parabéns. Parabéns a todos que fazem esta maravilhosa peça!