CLEMILDO BRUNET DE SÁ

Duplo padrão ou a dissimulação é uma arte

João Costa
João Costa*

Para sua consideração – “Matar dois coelhos de uma só cajadada”, todos sabem, é alcançar dois resultados benfazejos com uma única e escassa ação. Mas o tempo ensina que esse provérbio grego se aplicado nos dias atuais, remete ao útil padrão duplo de comportamento moral, compreensão, decisões jurídicas, relações de trabalho, crença religiosa. Enfim, o alvo duplo nos conduz.
 Se há algo que tem se tornado senso comum na vida brasileira é o duplo padrão. Na economia, chamam de capitalismo selvagem; na guerra, efeito colateral; na política consideram como pragmatismo; nas religiões judaico-cristãs, afirmam ser a escolha do Senhor. O Judiciário, ao que tudo indica, resolveu, também, adotar duplo padrão em seus julgamentos. Enfim, nossa percepção dos valores de civilização também tem esse viés duo, que vale até para a arte - principalmente.
O país convive com dois mandatários: uma presidente legitimamente eleita afastada e
um interino que age como se legitimidade tivesse. No caso da Dilma Vana, as razões apresentadas para o seu afastamento compulsório, comprovadamente foram derrubadas, mas não têm mais a menor importância. Afastada está, afastada seguirá, pois se era para aprovar o impeachment, porque desaprovar?    
O procurador-geral pediu a prisão de senadores pesos-pesados da República – não foi atendido. Das duas uma: ou Janot tinha e tem provas irrefutáveis contra quem acusou ou suspeita, ou destruiu todas. O que valeu para o senador Delcídio, não se aplicou aos demais senadores imbuídos do dever de “estancar a sangria” de denúncias mostrando os pais da Pátria chafurdando na corrupção. O que vale para dona Mariza não se aplica à mulher do Cunha e por aí vai.  A classe média não foi ou não vai mais à janela do apartamento para bater panelas. Certamente deixou de degustar feijão – cujo preço do quilo é uma temeridade ou coisa do Temer.
E o duplo padrão como a mídia nativa trata denúncias de corrupção, contaminou a mídia tabajara em relação ao prelado. Trata o caso do arcebispo como renúncia, truque ao qual nem a mídia do Vaticano ousou recorrer. Sabe-se que o papa Francisco encara casos de pedofilia na Igreja Católica como Pedofilia, porque de pedofilia se trata. E neste termo cabem muitas interpretações: perversão, pederastia, parafilia no sentido de doença, até o simples afeto por crianças está incluso. No mundo atual é crime.
O arcebispo da Paraíba que se vai, de boné, embrulhado numa bandeira nacional, de apito na boca, mão sobre o peito em ato contra o governo Dilma, faz lembrar o cardeal Richelieu – não o personagem de “Os 3 Mosqueteiros”, mas o outro, que pregava que a “dissimulação é uma arte” ou a arte dos reis. Ou até mesmo a arte das elites dominantes. Esse papa Francisco ainda vai obrigar a Igreja Católica adotar o Cristianismo como doutrina da fé. Assim sendo, a Igreja de Francisco na Paraíba ficou maior, ponto parágrafo.
Faz parte desse padrão duplo, apagar a trajetória dos políticos e candidatos em evidência. Lendo os articulistas políticos, percebo a maneira matreira como tratam da sucessão em João Pessoa. Uns, categoricamente afirmam que a campanha será polarizada entre o alcaide, candidato à reeleição, e  Cida Ramos, a candidata ungida por Ricardo Vieira. Especulam com a possibilidade (real) dos senadores José Maranhão e Cássio se aliarem num projeto comum para derrotar a candidata de Ricardo Vieira, já que unidos eles estiveram na patranha que derrubou o governo Dilma.
Outros tentam até o recurso de criminalizar o PT, na ausência de melhor argumento para contrapor ao professor Charlinton Machado. E o que seria de João Pessoa sem as verbas do governo PT lá em Brasília? Alguns políticos egressos do PT tornaram-se impolutos, certamente – ainda que tenha seu modo de administrar, motivo de investigação criminal.
Voltemos ao Procurador da República que até fez gracejo ao usar o bordão popular: “o que vale pra Chico, vale pra Francisco”, no esforço de mostrar um único padrão nas investigações que conduz. Por isso gosto de misturar alhos com bugalhos nos artigos que cometo. Exatamente porque não sei o que é joio nem muito menos trigo.
E convenhamos, caros amigos, depois que se mistura uísque com água com gás, não se bebe nem uísque, nem muito menos água. É outra bebida, duplo padrão de bebida que recomendo.

*João Costa é radialista, jornalista e diretor de teatro, além de estudioso de assuntos ligados à Geopolítica. Atualmente, é repórter de Política do Paraíba.com.br

Nenhum comentário: