CLEMILDO BRUNET DE SÁ

Se serve de consolo, resta o voto antifascista para vereador

João Costa
João Costa*

A nossa democracia, como a vivenciamos, é eleitoral. O voto é universal e secreto, mas o exercício dele é obrigatório, ainda que de relativo valor ou importância. No estado atual, visível de exceção, votar em candidatos a prefeito nestas eleições é avalizar a farsa institucional. Eleger candidatos a vereador que combatam o fascismo que se instaura, talvez nos sirva de consolo.
Impressiona como a arregimentação eleitoral movida pelos partidos ainda possa fazer algum sentido, mesmo como falsidade. E não estamos vivendo uma quadra política para resolver problemas entre o que é verdadeiro e legítimo e o que é falso, mas precisamos entender a natureza do mundo político ao redor, incrivelmente surreal.
Basta lembrar que durante a Ditadura Militar, as eleições municipais não foram suprimidas, à exceção das capitais. Existia como efeito colateral de demanda reprimida de cidadania e
eleitoral que alimentava os sustentáculos do próprio regime de exceção – o MDB e a Arena. A mídia nativa conferia legitimidade.
Que uma mídia familiar oligárquica, sonegadora de informação e vinculada a regimes de exceção e deles advogada permanente faça isso no Brasil, não surpreende. A surpresa agora são as instituições ditas de estado, democráticas e civis. O silêncio diante das arbitrariedades em curso, pelo simples fato de não serem perpetradas mediante a força da baioneta e dos coturnos, não redime ninguém. Não se compara a França de Vichy, mas é um arremedo.
O manual da democracia formula o conceito de que a consulta leva em conta a defesa e a prática do bem comum. Mas se os comuns são eternos praticantes da Servidão Voluntária, que Bem defender ou promover? Não se fala mais nem em perspectiva de poder, mas da inevitável e iminente perda de direitos, inclusive os conquistados.
O golpe institucional é de longo curso, é antinacional pois com esse víeis justificado foi no discurso do Usurpador na ONU, e à junta governativa conduz o desmonte da soberania e um projeto de nação, solidamente apoiada pela classe média, instituições, mídia empresarial e amplos segmentos do lumpenproletariat.
Para onde foram os milhões de brasileiros incompreendidos que ocuparam ruas e avenidas em junho de 2013? Foi  constrangedor assistir organizações fascistas; a direita empedernida, instrumentalizada com os meios de comunicação capitalizando politicamente reivindicações justas, que sequer foram atendidas, e as que foram, apenas em parte.
A juventude que pedia passe livre contentou-se com a redução de vinte centavos na tarifa, as populações desassistidas de serviços de saúde ganharam o Programa Mais Médico, que foi implantado no interior do país, mas descasado da melhoria dos serviços públicos nos hospitais, especialmente nas capitais. Basta conferir o Guia Eleitoral, onde todos os partidos prometem as mesmas coisas, e sobre a tarifa zera candidato algum se aventurou mencionar nestas eleições.
As forças políticas envolvidas na disputa eleitoral, mesmo as de viés marxistas, demonstraram ao longo dos últimos 15 anos que não vão além de pequenas conquistas nos marcos frágeis da democracia tutelada. Basta ver a maneira como o PT, o PC do B foram apeados do governo, uma demonstração cabal que jamais exerceram o poder de fato.
Sim, mas alguém pode argumentar que esqueci a corrupção. Corrupção é crime; crimes a polícia investiga, o Ministério Público denuncia e a Justiça condena ou absolve – ainda que seletivamente. Com agravante perturbador do caráter messiânico, fundamentalista cristão – o suprassumo do pensamento obscurantista, cujo terror está no princípio e na base.
O voto nulo não é tão desprezível assim. Ir à praia e aceitar pagar a multa eleitoral talvez não signifique ausência de cidadania ou omissão política. Talvez o voto naquele candidato a vereador que sabidamente combate o fundamentalismo religioso, a misoginia e o crescimento do fascismo nas câmaras de vereadores, justifique o exercício do voto este ano. Dos males o menor.

*João Costa é radialista, jornalista e diretor de teatro, além de estudioso de assuntos ligados à Geopolítica. Atualmente, é repórter de Política do Paraíba.com.br

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