CLEMILDO BRUNET DE SÁ

A Caverna

Teófilo Júnior
Teófilo Júnior* 

Humberto Eco costumava afirmar que a “internet deu voz aos imbecis.” Para o filólogo e escritor as redes sociais oportunizaram aos “idiotas da aldeia” a estenderem suas “verdades” muito mais além das cercas da mesa de bar e de suas taças de vinhos.
De fato, hoje a coletividade virtual é exposta e até relativizada, via de regra, por modelos e exposições minúsculas de altercações sem profundidade, numa dialética pobre e
factual, incapaz de seduzir o leitor a passar a página do próximo capítulo ou da próxima tela.
Além da exposição de um pensamento temporal, restrito, muito superficial e centrado unicamente em convicções muitas vezes sem qualquer observância a outro norte de contraponto, o pensamento midiático vem se isolando em ilhas, compartilhado, preferencialmente, de forma seletiva sob a ótica apenas do encontro de suas próprias  posições equivalentes, se distanciando de outras argumentações, ora por uma opção da própria seletividade , ora por motivações simplórias, incapazes de alicerçar um discurso substancioso e alheio ao seu próprio mundo.
Essa demasiada exposição de “filósofos de mesa de bar” através das redes sociais, hodiernamente, vem criando a até fomentando a construção de elementos separatistas e antipartidaristas, onde, não raramente, paixões superam a edificação lógica do que se tem como verdade. Isso vem fazendo surgir figuras e conceituações no mínimo inusitadas e até engraçadas, a exemplo dos “petralhas” e dos “coxinhas”. Aqueles se alinham a formação de uma verdade e de um raciocínio comum entre eles; estes, de igual forma, compartilham entre si um conhecimento tido como verdade rasa, divergente do primeiro, igualmente desprovido de razões de convencimento. E a coisa fica por ai.
O que ocorre com tudo isso é que nesse universo da internet tudo nos parece muito razoável e girando em torno de si mesmo. Carece do aprofundamento de suas razões e do confronto de suas construções sejam elas políticas ou sociais.
Presumo, atento a própria improfundidade sugerida a que estamos submetidos, que retornamos todos aos grilhões contemporâneos da nova Caverna que criamos. 
*Escritor e Jurista

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