CLEMILDO BRUNET DE SÁ

ERA UMA VEZ 2016, E NÓS AINDA POR AQUI

Jerdivan Nóbrega de Araújo
Jerdivan Nóbrega de Araújo*

Em 1968 foi lançado o filme Space Odyssey (2001 – Uma Odisseia no Espaço), dirigido e produzido por Stanley Kubrick, coescrito por Kubrick e Arthur C. Clarke e baseado no livro homônimo do Arthur C. Clarke.
No dia 20 de julho de 1969 três homens seguem em direção a lua, o que foi a maior aventura da humanidade, até então. São apenas duas aventuras que eu testemunhei, entre tantas que eu poderia citar, quando cruzava, pés descalços, meio moleque, as esquinas da minha urbe.
A Pombal dessa época ainda era uma pacata cidade interiorana, que aplaudia incrédula a chagada da televisão. Os jovens ainda eram jovens mesmo aos dezoito anos de idade, e os vagabundos, bêbados e loucos faziam parte da paisagem, com a naturalidade e
a invisibilidade dos que acreditavam que aquela condição era a coisa mais normal do mundo.
A paisagem da cidade de Pombal era a de um lugar perdido no tempo: seus arruados com os casários, igrejas, ruas descalçadas. A poeira levantada pelos redemoinhos do meio dia, onde o Saci fumava seu cachimbo, batiam as janelas dos casarões, nas quais não foram colocadas as tramelas que as prendiam da fúria da ventania.
Para os mais velhos, a possibilidade do homem pisar na lua era algo impensável, e nem se discutia essa “mentira deslavada dos americanos”. De 2001 – Uma Odisseia no Espaço, sabíamos de ler, já que nunca fora exibido nas Telas do Cine Lux, e a TV ainda não era um luxo nosso.
Eu lia Herman Melville, Julio Verne, Ernest Hemingway, e queria ser Che Guevara,Tarzar, Robert Redford ou, dependendo da hora e do dia, apenas eu mesmo.
Contemplar a virada do milênio, e enfim chegar a 2001, “um lugar” completamente diferente do meu, aonde os homens se transformariam em máquinas, e naves cruzavam os céus, nos levando até outros planetas, assim como as ilustrações da “Revistas Seleções Reder's Digest”, era algo inatingível em minha mente: talvez fosse um mundo para meus netos!
Mas, eis que de repente estou aqui. No caminho deixei muitos amigos, irmãos, pais e outros parentes próximos. O mundo mudou, e não se discute se para pior ou melhor. A tecnologia esperada não foi a visualizada pela “Revistas Seleções Reder' s Digest” ou por visionários como Arthur C. Clarke ou Stanley Kubrick.
A nossa Pombal seguiu seu caminho sem um planejamento, mas seguindo em frente como era de acontecer.
Os nossos jovens envelhecem aos 14 anos. Carros impacientes estremeciam a terra com suas buzinas e barulhos de motores, nos envenenando com o dióxido de carbono.
O meu pai já não mais cruza por aquelas ruas, e até mesmo os redemoinhos do meio dia não mais batem as nossas janelas como antigamente: chego a duvidar se ainda é possível ver no centro do “pé de vento” o Saci pererê, com seu cachimbo e gorro vermelho: pelo menos eu que tanto o vi, não mais o vejo.
Por sorte ou destino aqui estou, e se tudo der certo seguirei para 2017, deixando para trás os sonhos não realizados e as frustrações acumuladas no ano que termina, querendo reescrever uma nova história nessa folha em branco que é 2017.
Mas, não se iluda: a passagem ano é apenas o tempo de translação que Terra realizada ao redor do Sol. Não vai significar nenhuma mudança, salvo a que vem de dentro de nós. E por mais perfeito que você se ache, eu espero que você enfrente o processo e o trauma das mudanças através do autoconhecimento, antes que alguém mude você.
Lembre-se do que eu falei antes: 2001 era um “lugar” aonde eu nunca imaginaria chegar, e hoje estou aqui.
Bom 2017!

*Pesquisador e Escritor pombalense

Nenhum comentário: