CLEMILDO BRUNET DE SÁ

ADVERSÁRIO X INIMIGO

Severino Coelho Viana
Por Severino Coelho Viana*

A arte política como uma ciência não muda, o que está mudando esculachadamente é a politicagem na mente dos idiotas. A atividade política contamina-se com a proliferação entre adversário político e inimigo pessoal. O adversário contenta-se em derrotá-lo, enquanto que o inimigo pessoal tenta destruí-lo a todo custo.
A inimizade pessoal afasta o princípio democrático da convivência entre os contrários, acaba com o senso crítico razoável e solta o verbo venenoso do ódio tresloucado. As espadas estão em riste podendo a qualquer momento haver derramamento de sangue por conta do ódio pessoal.
No ataque pessoal vão para cima do adversário com todo gás, não respeitam honra pessoal, dignidade humana e capacidade profissional. O sectarismo partidário está tão brega que é formado de mentiras deslavadas e
deixa o oponente rente ao chão. De intelectual passa a ser burro, de inteligente a ser medíocre, de honrado a ser canalha, de honesto a ser pilantra.
É lamentável a ridicularidade desses ataques pessoais que em nada constroem em benefício do regime democrático, pelo contrário, deseduca e despolitiza o eleitorado que se espelha no chefe político.
A adversidade (termo correto usado na ciência política) ocorre somente no período de campanha eleitoral, ou seja, cada um torcendo pelo seu time. Essa adversidade não pode ser direcionada para o terreno da inimizade pessoal. Situação contra oposição são concorrentes, disputam o espaço político, mostram o prestígio pessoal, medem o poder de força popular. O próprio tempo se encarrega de mudar as circunstâncias, que são conjunturais, porque muitas vezes o adversário de hoje poder ser o aliado de amanhã.
Nossos políticos precisam entender que não devem ser movidos pelo ódio pessoal, nem pelo desejo de destruição, são sentimentos exclusivos dos inimigos, estes sempre alimentam um sentimento negativo para o outro, surgindo então inimizades pessoais. O ódio é um defeito que precisa ser eliminado através de uma terapia, este sentimento esdrúxulo não serve de apoio para divergências políticas.
A política do ódio é uma manobra perigosa, algo elaborado e praticado por forças que se apossam do senso comum das massas, do seu desencanto, para introduzir na nossa cultura a intolerância, a intransigência, o deboche, a pobreza de espírito.
Agora inimigo é inimigo. Não tem acordo, predomina a lei da carranca do velho Oeste. Deixa de ser disputa política e passa a ser duelo. O duelo oral é o que mais maltrata.
O pior de tudo isso, a nossa modernidade política vivenciada pelos eleitores não passa de um desastre de ideias tortas. Meu Deus!  Quanta gente perdeu amigos por causa de briga política, desfez amizade no Facebook porque a discussão baixou o nível e partiu para agressão pessoal?  O discurso do ódio projetou-se de tal forma nas redes sociais que tem hora que pensamos que a discussão não é entre seres humanos. São criaturas produzidas pelo mundo da violência e do sectarismo político. A cabeça não pensa e não tem o mínimo de cuidado com a habilidade do dedo na letra do teclado. E tome desaforo! Sabe por que isto aconteceu? Aprenderam com os caciques que comandam militantes que sofrem de miopia.
A que ponto nós chegamos? Isso é o espelho da realidade mostrado e reproduzido pelos nossos políticos despolitizados.
A formação do estado como uma sociedade organizada emanou-se da arte política. As instituições democráticas são as formas mais civilizadas de convívio político, exatamente porque institucionalizam o conflito no campo das ideias e, ao mesmo tempo, fixaram os seus limites dentro da lei. O pluralismo, a liberdade de organização política e de associação, os direitos individuais, os direitos das minorias, a divisão de poderes, as eleições periódicas, são princípios constitucionalmente garantidos para proteger a liberdade ante o desafio do agente opressor.
O partido político é um instrumento representativo aceito pelo regime democrático agregando pessoas de ideal comum e arregimentando o bom debate perante a massa de um programa governamental convincente e de acordo com as necessidades da comunidade. Não pode dilapidar o patrimônio público com o fim de perpetuação no poder ou formação de um grupo oligárquico que só visa interesse inescrupuloso.
A lógica da arte política indica a descoberta de um líder pela sua natureza de saber governar a coisa pública e ter amor ao próximo realizando benefícios em favor da coletividade. Trazendo consigo mesmo o ideal de bem servir e ter convicção plena de abraças as causas sociais. Não se pode governar com um coração carregado de ódio, com uma mente orientada pela vingança pessoal, nem tampouco com o interesse obtuso de confundir a coisa pública como um bem privado. Precisa ser um idealista convicto de que aquele mandato não passa de um tempo determinado e transitório outorgado pelo povo e deve ter maior zelo com a coisa pública como se fossem pertences de ordem particular.
O mandatário é eleito por um partido político, todavia, no exercício do cargo eletivo torna-se representante de todo o corpo social. É claro que tem a sua ideologia política, o programa de partido, as diretrizes partidárias e a doutrina política, no entanto, o seu elevado nível de consciência política se edifica com um pensamento voltado em busca do bem coletivo.
Essa política do rancor exacerbado é um método antigo praticado pelo coronelismo, é uma forma ridícula de constituir forças que se apoderam do senso comum das massas, criam na mente a cultura da intolerância, da intransigência, da irracionalidade, do desatino e da perturbação pública.
Depois do resultado oficial das urnas, apresente os cumprimentos e parabenize o vitorioso, além do reconhecimento de que aceita a decisão da maioria, isso é o ideal do regime democrático.
João Pessoa, 21 de fevereiro de 2017.
*Escritor pombalense e Promotor de Justiça em João Pessoa PB

scoelho@globo.com

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