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SILÊNCIO




Por Severino Coelho Viana


Os nossos tímpanos não aguentam muito barulho, ouvir um som estridente, a explosão de uma dinamite, o tiro de um canhão, o ruído de um som alto e o zumbido dentro do ouvido, justamente, por ser uma espécie de tortura psicoilógica que prejudica o sossego alheio e causa problemas à saúde pública.
Enquanto isso, escutar o som harmonioso na cadência de uma melodia, sentir a suavidade de uma bela canção, o tinido de um pássaro canoro, o murmúrio das ondas do mar ou uma cantiga de ninar! São suspiros melodiosos que burilam a alma humana.
Não acreditamos que o silêncio seja o desejo de querer ser pedra, pois o falar é importante quando se tem consciência plena daquilo que se está dizendo. O silêncio é a marca do homem pensante, do pensamento comedido, do diálogo civilizado.
Por seu turno, há um fator que nos incomoda e incomoda muito, qual seja, aquela pessoa tagarela que não para de falar e dá a entender que sabe de tudo, mas sempre inicia a sua frase com aquele velho jargão: “eu acho”, e aquele assunto que não nos interessa. É um tipo de tortura psicológica. Nós sempre conhecemos pessoas que não param de falar. E este terrível hábito, atormentador dos tímpanos do ouvinte, pode ter várias explicações, entre elas a própria fragilidade da personalidade, ter aprendido com o costume familiar ser dono da razão ou carência de afetividade que resultou num distúrbio que causa ansiedade ou uma mania!
Atualmente já virou uma mania o falar demais somente para inflar o próprio ego, torna-se arrogante e deixa o receptor totalmente desajeitado por não querer ser mal educado por não pedir para murchar a língua e olear as letras do teclado!
Ressaltamos que o filósofo americano Harry Frankfurt, ao escrever o livro “Sobre Falar Merda”, um livro de bolso com pouco mais de 60 páginas que podem ser devoradas durante uma olhadela, faz parte do currículo do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na cadeira de Filosofia, do professor Luiz Carlos Bombassaro. Não poderia ser mais realista, analisando o comportamento daqui e de fora. O autor manda um recado direto aos que passam o tempo falando bobagens nas redes sociais e nos grupos midiáticos que cansam de discussão infindável batendo à mesma tecla e reprisando o mesmo tema, tentando manter o domínio do contato virtual, que dá até repugnância auditiva, sem haver curtida e compartilhamento, muito embora o objetivo do autor seja o de desvendar a essência do discurso político. Assim entendemos como uma crítica muito pertinente porque quem utiliza desta artimanha, foge da finalidade do diálogo rápido entre amigos com o devido respeito às ideias contrárias.
Nós compreendemos o silêncio como uma necessidade interior, cada pessoa precisa de um momento de reserva para analisar e rever os próprios atos, refletir sobre o futuro e meditar sobre a vida.
O mais interessante no estudo da mitologia, nós apreciamos o seu estudo e nos deparamos sempre uma divindade que simboliza atos, gestos, atitudes e comportamentos humanos. Por isso, nós encontramos o deus do Silêncio, que se chamava de Harpócrates.
Os gregos criaram vários mitos para poder passar mensagens para as pessoas e também com o objetivo de preservar a memória histórica de seu povo. Há três mil anos, não havia explicações científicas para grande parte dos fenômenos da natureza ou para os acontecimentos históricos, mas eles buscavam explicações para os fenômenos da natureza.
Harpócrates, o deus do silêncio, segundo a crença mitológica, teve origem no Egito, deduzia-se que era filho de Ísis e de Osíris, confundindo-se por certos mitológicos como Hórus. Na Grécia e em Roma, sua estátua era frequentemente colocada à entrada dos templos, o que significava ser preciso venerar os deuses em silêncio, ou que os homens, não tendo nada de divindade senão conhecimento imperfeito que só lhe deviam falar com respeito. Os antigos usavam muitas vezes nos seus sinetes a figura de Harpócrates para indicar que se deve guardar o segredo das cartas. (hoje até as mensagens telefônicas de caráter pessoal são quebradas o seu sigilo).
Harpócrates normalmente era representado como uma criança de trança (como as crianças egípcias usavam naquela época), saindo de uma flor de lótus, sempre com o dedo na boca, como se estivesse pedindo silencio.
A representação de Harpócrates era de um homem jovem e nu ou com um traje rojando o chão, ornado de uma mitra à moda egípcia, levando na cabeça um cesto, segurando em uma mão uma cornucópia e, na outra, uma flor de lótus e uma aljava. O símbolo que principalmente o distingue é o dedo indicador sobre a boca no sentido de recomendar o silêncio e a discrição. O mocho, emblema da noite, é algumas vezes colocado aos pés de sua estátua.
Roma possuía também a deusa do Silêncio que era venerada pelo nome de Lara, Muta ou Tácita. Seu culto tinha recomendado pelo rei Numa Pompílio, que julgara ser essa divindade necessária ao estabelecimento do seu novo Estado. Lara era uma Náiade de Álmon, regato que se retira no Tibre, abaixo de Roma. Júpiter, apaixonado por Juturna, não tendo podido encontrá-la porque ela fugira e se atirara no Tibre, chamou todas as Náiades do Lácio e lhes suplicou que impedissem a ninfa de se esconder nas suas ribeiras. Todas prometeram o seu serviço. Lara, vendo-se sozinha, foi declarar a Juturna e a Juno os desígnios de Júpiter. O deus, irritado, fez cortar-lhe a língua e ordenou a Mercúrio que a conduzisse aos infernos; em caminho, porém, Mercúrio sensibilizado ante a beleza dessa ninfa, fez-se amar por ela, e, dessa união nasceram dois filhos, que por causa de sua mãe foram chamados Lares.
A festa dessa deusa do Silêncio celebrava-se em Roma no dia 18 de fevereiro. Ofereciam-lhe sacrifícios para impedir a maledicência. Os romanos reuniram-se a sua festa à dos mortos, seja porque passava por ser a mãe dos Lares, seja porque teve a língua cortada, era o emblema da morte, por seu eterno SILÊNCIO!.
Por isso, a experiência de nossa vida cotidiana expõe claramente a existência de pessoas que se sentem agoniadas quando não estão falando, todo assunto elas dão os seus pitacos e metem a língua em água quente quando não têm autoridade no assunto. Isso faz lembrar a lição do mestre Platão: “o sábio fala porque tem alguma coisa a dizer; o tolo porque tem que dizer alguma coisa”.

Não nos custa nada em repetir a lição, o silêncio é o companheiro discreto das grandes horas criadoras.
É nele que o ser humano se aprofunda no estudo, se integra por completo à meditação da alma, encontra-se na contemplação de uma noite estrelada e reflete sobre as linhas misteriosas da existência.
É a lei do silêncio que leva a criatura conversar com Deus!

João Pessoa, 29 de março de 2020.


SEVERINO COELHO VIANA



SILÊNCIO SILÊNCIO Reviewed by Clemildo Brunet on 4/02/2020 09:17:00 AM Rating: 5

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