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AGRICULTURA FAMILIAR: Assim não funciona. Versão II

Ignácio Tavares
Ignácio Tavares*

Está bem claro que nenhuma atividade produtiva sobreviverá sem o amparo de um mercado amplo e diversificado. Estou a me referir a uma estrutura de mercado cujos preços praticados sejam capazes de cobrir os custos de produção das mercadorias produzidas, bem como gerar lucros excedentes, de tal sorte que possa assegurar a permanência dos agricultores no campo.

Infelizmente, no mundo real, no caso da agricultura familiar, a relação produtor/mercado deixa muito a desejar. Quando essa relação existe, na maioria das vezes, é perversamente desvantajosa para quem produz, pois as imperfeições do sistema de comercialização obrigam o produtor a vender suas mercadorias ao intermediário, a preços deficitários, por conseguinte, incompatíveis com seus custos de produção.

Há raras exceções. Por exemplo: quando as vendas estão atreladas a programas governamentais, do tipo compras diretas, entre outros, os preços tendem a ser mais generosos para com o produtor. Mas, essa relação preço/mercado, de forma justa, contempla apenas alguns poucos produtores, entre os milhares em atividades.

Este é um lado da questão. O outro lado diz respeito a pratica da agricultura familiar. Nos últimos trinta anos novas técnicas agrícolas foram postas em pratica, por pequenos e médios produtores, isto é, nos grandes centros de produção agrícola do país. Acontece que no sertão paraibano, onde se pratica, em grande parte, a agricultura de subsistência de sequeiro, essas técnicas mão aconteceram. Por isso nada mudou.

Nesta região, há muito tempo, a agricultura está a viver uma triste situação de insolvência absoluta. Em se tratando de uma agricultura de baixa rentabilidade, entende-se porque as novas técnicas de cultivo, manejo, preservação ambiental, testadas e aprovadas pela EMBRAPA sejam até então desconhecidas pelos pequenos e médios produtores. Assim sendo, além de prevalecer técnicas rudimentares, seculares, nas práticas do processo produtivo, outro elemento está a agravar cada vez mais a situação dos pequenos e médios produtores: a falta de mão de obra no campo.

Depois da crise do algodão o campo esvaziou-se, restando pouca gente para o trabalho produtivo rural. Noutras palavras, de forma recorrente estou a dizer que, a crise econômica no campo provocou a evasão massiva da população rural para os centros urbanos. A conseqüência é a quase inexistência da mão de obra na zona rural nos dias atuais.

A velha geração de trabalhadores rurais não foi sucedida por nova geração afeita ao trabalho produtivo. O jovem que ainda reside na zona rural tende a migrar pra cidade. A cidade o fascina por conta da falsa expectativa de o jovem egresso da zona rural vai encontrar o emprego que tanto está a procurar. Ademais, oferece melhores condições de estudo, lazer, entre outros atrativos.

Assim sendo, as poucas unidades produtivas atreladas às políticas de incentivo a agricultura familiar, na sua maior parte, repito, são administradas por trabalhadores acima dos sessentas anos, cuja força física está aquém do ideal para o exercício de uma agricultura de resultados positivos.

Estão sozinhos coitados, pois, não contam com a mão de obra jovem que se mantém distante das lides do setor rural. Repito que: quando o jovem migra pra cidade, não encontra o emprego que tanto procura. Neste caso, parte pra uma solução momentânea que é comprar uma moto para trabalhar como moto-taxista, a exemplo de tantos outros que, da mesma forma exercem a mesma atividade, pelas mesmas razões.

Não se trata de uma regra geral, pois, há casos em que a família continua a trabalhar unida. Isso acontece quando o rendimento da unidade de produção agrícola é capaz de remunerar os membros da família de forma satisfatória. Normalmente isso acontece quando a unidade produtiva está integrada ao mercado consumidor, ademais, é bem assistida, sob todos os aspectos.

Nesses casos a família trabalha com arranjos, a envolver culturas diversificadas, o que assegura a permanente oferta de mercadorias no mercado local. Se há vendas, há receitas. Da mesma forma se houver receitas, com certeza, haverá possibilidades de lucros.

Repito, a exploração em regime de arranjos produtivos é uma situação especial, pois, a produção não se concentra em apenas um ou dois produtos de ciclos definidos. São cultivados diversos produtos, com certa freqüência, associados a outras atividades, a envolver avicultura, piscicultura e ainda a criação de pequenos animais, que aumentam as chances de lucros.

Pode-se dizer que este é um caso típico de agricultura familiar bem sucedida, porém, pouco incidente no universo dos pequenos e médios produtores rurais no sertão paraibano. Este caso é mais freqüente nos perímetros irrigados onde se pratica uma agricultura voltada para o mercado.

Agora, se governo pretende dar continuidade a política de incentivo ao desenvolvimento da agricultura familiar de resultados, baseada num contexto de eficiência máxima no uso dos recursos de produção, necessariamente, vai ter que mudar o foco dessa política. Depois falarei sobre essa questão.

Posto isso posso afirmar que não faz sentido investir numa política de desenvolvimento da agricultura familiar quando a renda da terra, do trabalho, mal dá para manter as famílias nos limites de subsistência. Se não houver uma remodelação da estrutura interna da propriedade agrícola, bem como do modo de administrar os recursos de produção, com certeza a pobreza no campo continuará como dantes.

No próximo texto veremos quão é importante remodelar, sob todos os aspectos, a propriedade familiar, para que se tenha uma agricultura de resultados positivos.

João Pessoa, 16 de Maio de 2011
*Economista e escritor pombalense
AGRICULTURA FAMILIAR: Assim não funciona. Versão II AGRICULTURA FAMILIAR: Assim não funciona. Versão II Reviewed by Clemildo Brunet on 5/15/2011 09:38:00 PM Rating: 5

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