CLEMILDO BRUNET DE SÁ

Festa do Rosário de Pombal sem a visualização da PBTUR, mas é pra ser visto... COM OLHOS DE TURISTA...

Tarcísio Pereira
Por Tarcísio Pereira*

Tem uma coisa que eu nunca entendi: que Nossa Senhora do Bonsucesso seja padroeira da cidade e não Nossa Senhora do Rosário, que é quem dá nome à festa que mais tem badalado Pombal. Outra coisa: a Igreja do Rosário me parece mais bonita do que a Matriz do Bonsucesso, sempre um belo monumento que, segundo se diz na língua pombalense “foi construída pelos índios”.
A Capela do Rosário que passa o ano praticamente fechada com funcionamento somente aos domingos, perde para a Matriz nos dias normais, mas vira o altar de adoração durante estes nove dias de outubro enquanto a outra, relegada ao desprezo, fica fechada neste período e, nas suas proximidades instalam-se as barracas mais pobres, as mais “profanas, aquelas cujos frequentadores são os homens simples, os que vão tomar cachaça com linguiça e
farofa de sardinha, “matutos” que vêm dos sítios exibindo suas aberrantes camisas xadrez e calças vermelhas, “bordóis”, “cenouras”, ou “abacates”. São homens que se afastam do grande centro da festa ¾ que fica mais abaixo ¾ justamente para não misturarem-se aos grã-finos.
Não conheço a origem. Não em que ano começou, nem como teve inicio. O certo é que a Festa do Rosário ¾ ainda que, nestes últimos anos, tenha “perdido a graça” ¾ é uma tradição secular que mantém acesa a sua chama no coração daquele povo, ou das pessoas de outras cidades que já tiveram a oportunidade de conhecê-la. É como se essa festa fosse a razão de ser de Pombal; é o evento anual em que a história tem registrado grandes acontecimentos na vida dos indivíduos e da sociedade ¾ como casamentos, crimes, visitas de personalidades ilustres ou passagens de artistas famosos.
Mas isto não me parece tão relevante ainda: é apenas um detalhe que ilustra bem essa dualidade interiorana que nos deixa sem resposta a vida inteira. O que acho importante, e oportuno neste momento, é chamar a atenção para um aspecto que, como todo pombalense que morre de amores pela terrinha em que se criou, me preocupa bastante: a tal “modernidade” sobre um festejo antigo que, em determinada época me parecia a magia da cidade.
Só vim atentar para este detalhe quando, em 1980, vim morar em João Pessoa e aqui conheci nossa Festa das Neves. Uns meses antes, todo mundo falava e eu achava mesmo que essa festa aqui na capital era o equivalente da Festa do Rosário em Pombal.
Ledo engano, que me decepcionou completamente e me fez perder, também todo o encanto daquilo que eu já tinha na “festinha” de lá. A Festa do Rosário de Pombal, como diria o escritor Graciliano Ramos, é algo que precisa ser visto “com olhos de turistas”.
Aqui, ao contrário de Pombal, não era (e não é) todo mundo que sai de casa para ir passear no meio dos parques, beber nas barracas e comprar roupas novas para exibir-se em público. Em outubro, Pombal goza do privilégio de entrar em contato com o mundo e é nessa época que os cofres dos lojistas engodaram. Esse contato se dá pelo que a cidade recebe de gente de fora ¾ hoje, aliás, talvez não seja tanto, mas posso garantir que, na época em que vivi por lá, tinha gente que vinha de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Durante as últimas três noites, as casas ficavam fechadas porque todo mundo ia para rua, todos de roupas novas, todos com roupas diferentes, porque se alguém se defrontasse com outro cujo figurino fosse o mesmo, um dos dois voltava para casa morrendo de tristeza. Já presenciei uma cena, ainda na minha infância, de duas moças que, pelo simples fato de estarem com roupas idênticas, disputaram, no par-ou-ímpar, a condição de quem deveria voltar. Quando deu-se o resultado, vi a derrotada voltar para casa chorando, enquanto a vencedora ria e, ainda por cima, tentava ficar com o namorado da outra.
Vejam, pois, a que ponto chegava, e tenham uma ideia de como as famílias se entucavam  nas ruas, de como as casa ficavam fechadas e não se via um único aparelho de TV ligado. Hoje o quadro mudou, mas a tradição permanece. É ainda nessas três noites, lá em Pombal, que os temíveis ladrões de galinha se aproveitam para pular os muros. Era nessas três noites que muitas meninas( virgens), engravidavam por trás dos monturos das casas e de lá fugiam com o respectivo namorado, geralmente para o sítio de um parente, onde ficavam acoitados até o entendimento das duas famílias pela consumação do casamento.
O sexo era a glória por trás daqueles monturos, sobretudo nos anos 70, época em que “abafavam” as calças boca de sino e os rapazes cabeludos. Como hoje já tem motel na cidade e os amores não são mais proibidos, monturos silenciam sob o luar de outubro e os ratos, atentos ao barulho das difusoras dos parques, trafegam à beira dos córregos enquanto as lagartixas sobem tranquilos nos muros em que os casais se ralavam.
Falta dizer que é nessas três noites que a Rede Globo de Televisão, se dependesse de Pombal, estaria fatalmente falida. Afinal são as três noites mais esperadas do ano e tudo que ocorre ali, se tivermos o cuidado de olhar com “olhos de turistas” de Graciliano Ramos, nos parece o bastante para se fugir do trivial dos acontecimentos normais. Finalmente essa festa resgata, a seu modo, alguns elementos da cultura nordestina como os Reisados, os Negros dos Pontões, os Congos, as feiras entulhadas de povo e vendedores de folheto, bonecos de barro, artesanato, tudo o que se possa imaginar!

*Tarcísio Pereira é um escritor brasileiro com diversas publicações. Tem 22 livros publicados no gênero Romance, Teatro e Biografia.

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