CLEMILDO BRUNET DE SÁ

A FAMÍLIA "ESPALHA" E SEUS MENESTRÉIS...

Prof° Vieira (Foto)
POR FRANCISCO VIEIRA*

É comum o uso de apelidos entre as pessoas, alguns restritos a um só indivíduo, outros vão além da individualidade. Indo mais adiante, essa prática às vezes toma dimensão abrangente se estendendo a famílias inteiras. Nesse aspecto e a título de exemplo, podemos citar as famílias “Pandeiro” e “Maniçoba”, notadamente as maiores e mais tradicionais de Pombal, assim como outras de igual valia, cujos nomes venceram o tempo se estabelecendo como marcas registradas.

É certo que os caracteres biológicos assemelham seus indivíduos, mas cada família se destaca pelas suas habilidades, segundo a vontade divina, afinal, tudo provém de Deus. São dons passados de geração em geração que se manifestam no diversificado e infinito campo das artes, tais como: pintura, literatura, poesia, música, etc. É a certeza de que a força da herança nos assegura a perpetuação da espécie e a transmissão dos dons. Assim, numa exaltação a arte, enalteço a importância dos “Pereira de Mendonça” ou “Espalha”, ilustre família de nossa terra.

A origem do apelido remonta ao Séc. XX. É simples e hilariante. Senão vejamos: segundo Carmélia – filha de Chico Espalha – esta denominação deve-se ao fato de que seu avô paterno de nome Zé Espalha, além de ser um homem de mesa farta mostrava-se ainda hospitaleiro e cortês. Dado seu espírito receptivo costumava oferecer diariamente café a todos que visitavam sua residência nas proximidades da Rua do Fogo, para quem colocava assentos ou “espalhava”, na linguagem mais comum. Conta ainda que para atender a demanda o mesmo era feito em lata de querosene, tão grande era o contingente de pessoas que por ali passavam. A prática tornou-se uma constante de forma que os freqüentadores diziam em tom de brincadeira: vamos ao café que Zé já “espalhou” os bancos. Daí, a denominação “Espalha” foi dada a todos os seus descendentes e familiares se difundindo por toda região.

Por outro lado é sabido que a família tem grandes afinidades musicais manifestadas desde os primórdios. Segundo versão do grande pesquisador e historiador Verneck Abrantes, portanto, fonte fidedigna é que a família desde cedo já dava ares dos talentos artísticos que viriam mais tarde se tornar uma referência. Conta o historiador que em 1938, Mário de Andrade, então pessoa influente do Departamento de Cultura de São Paulo, mandara a Pombal uma caravana com a finalidade de pesquisar o nosso folclore tendo passado na cidade do dia 9 a 11 de abril de 1938, no exercício da missão. Na ocasião gravou Pedintes, Modas de Viola, Belarmino de França como repentista, Congos, Chula, Modinhas, etc. Enfim gravou um coco na voz de Francisco Pereira de Mendonça ou Chico Espalha, conforme encontra-se impresso na gravação. Com certeza a partir daí o nome “Espalha” teve origem com a difusão da música nos arredores de Pombal. Da expressão Chico ”espalha o ritmo”, “espalha a música”, deu-se a denominação da hoje conhecida “Família Espalha”.

A família é constituída de gente simples, humildes e pacatas. São pessoas devotadas ao trabalho como fonte de sobrevivência. São mansos e de fácil relacionamento com o semelhante sabendo cultivar grandes amizades. Em suma de boa índole, portanto, digna do respeito de todos.

Destaca-se, sobretudo, pelos dons artísticos direcionados a música, qualidade tão evidente que tornou a família um referencial no município e região na arte de tocar e cantar. Embora não exista privilegiados para Deus, com certeza, “Os Espalhas”, são agraciados pelos dons que receberam. É que Deus escolhe as pessoas para manifestar seus infinitos poderes.

A música está para os “Espalhas”, assim como o orvalho está para a planta. Existe grande afinidade entre ambos, uma relação íntima entre a família e a arte; e não há como negar. Essa tendência musical está nas entranhas, é um elemento a mais no sangue “espalha”. Perdoe-me a ousadia, mas desconheço algum dentre eles desprovido desse talento. Não há um sequer que não tenha o mínimo de afinidade com a arte. Senão um exímio violonista ou destacado cantor, com certeza notável percussionista. Quer numa orquestra, conjunto musical ou escolas de samba animando as campanhas políticas o talento da família está presente.

A tendência musical da família vem desde os primórdios. As primeiras manifestações vocacionais surgiram através de Chico, Severino, China e Dr. Espalha. Eles foram os precursores que deram origem ao que se transformou numa paixão e tradição familiar. Foram eles que levados pelos mesmos sentimentos românticos e agrupados pelos mesmos ideais formaram os primeiros grupos de seresteiros de Pombal. Anos depois, como que preservando a tradição surgiram outros como: Leonardo, Dedé, Cícero, Chico de João Espalha, todos sob a batuta dos mestres Bideca e Chico de Doura, hoje tocando e cantando no conservatório do céu.

Quem não lembra com saudade desses tempos dourados. Vez por outra nos deparávamos com o grupo reunido em rodas de samba. Quer fosse em bares, casa de amigos ou serestas, era sempre uma festa. Era a oportunidade de presenciar grandes músicos e se deleitar ao som de violões cadentes muito bem dedilhados e músicas bem interpretadas. Era a união perfeita; o sincronismo do útil com o agradável.

De forma bem particular tenho bem vivas na memória as noitadas na residência de “Seu João Espalha”, que também se destacou como tocador de realejo de sopro e bumba na filarmônica municipal e orquestras carnavalescas. Esses encontros musicais aconteciam quando Chico, seu filho, vinha a passeio trazendo as novidades do Rio de Janeiro. Ali não só tocavam e bebiam como jogavam conversa fora. O bom é que lá eu tinha entrada franca, pois era amigo de infância de seus filhos Joãozinho e Arereu – ambos de saudosa memória – e me sentia privilegiado por isso. Era a família “in concert”, onde inclusive as mulheres também mostravam suas habilidades provando que Deus não faz discriminação. Aí se destacava Zoraíde, a quem eu tributo uma das vozes femininas mais bonitas que já ouvi. Costumo dizer que era uma Ângela Maria menor.

O grupo tinha público garantido. Era impossível resistir ou passar despercebido diante de tão agradável tentação. Apreciar por alguns minutos podia se transformar em horas. É que a música em sua linguagem universal, principalmente quando bem executada, envolve a todos. Sua ação desmaterializa o homem que faz sua alma submissa a imaginação. Ninguém questiona o poder da música e seus efeitos sobre a humanidade.

A música não é apenas uma diversão, é mais que uma arte. Ela consiste num conjunto sincronizado de ritmos, harmonia e melodia, capazes de gerar sentimentos contraditórios como: calma e ansiedade, paz e medo, rir e chorar, alegria e tristeza, enfim, alterar o comportamento humano. É que a música trabalha com a sensibilidade unindo os sentimentos e as pessoas, portanto, arte por excelência, cujos efeitos são tão antigos quanto a história da humanidade. Segundo I Samuel: Capítulo 16, versículo 23, consta que Davi tocava harpa para aliviar a depressão decorrente dos ataques de fúria do rei Saul.

É evidente que a “Família Espalha” é parte integrante de Pombal e sem ela nossa história seria outra, no mínimo sem brilho. Sem ela o escuro das noites seria sinistro. O silêncio das madrugadas um calar sombrio, pois faltaria o amor e encantamento traduzido pelos acordes de um violão plangente dedilhado por Bideca e sua turma em serenatas regadas de canções eternas e melodias inesquecíveis.

Antes, porém, que a modernidade destrua velhos costumes; que os valores afetivos se intimidem diante da predominância econômica afastando o sentido de família, fica este registro como tributo. Meu intuito é exaltar nossa história e torná-la perpétua, senão duradoura e acessível às novas gerações.

A “Família Espalha”, pelas qualidades e habilidades artísticas se constitui um bem patrimonial da nossa cultura, Preservá-lo é nosso dever. Silenciar seria omitir e omissão é pecado, crime e injustiça. O silêncio seria a mortificação da cultura gerindo a ignorância dos fatos e inexistência da história. Quanto alento para os nossos corações! Quão bela e fascinante é a inspiração! Que vaidade para nossa terra. Quão prodigiosa é A “FAMÍLIA ESPALHA E SEUS MENESTRÉIS..

Pombal, 30 de janeiro de 2011.
*Professor, ex-Diretor da Escola Estadual "João da Mata", Ex-Secretário de Administração do Município de Pombal.

DUBIEDADE DO APOSENTADO...

Clemildo Brunet (Foto)
CLEMILDO BRUNET*

Quando vejo na bíblia a expressão “E tu irás para os teus pais em paz; serás sepultado em ditosa velhice” promessa de Deus a Abrão em Gênesis 15:15, bem como em outra passagem: “Velho e farto de dias, expirou Isaque e morreu, sendo recolhido ao seu povo; e Esaú e Jacó, seus filhos o sepultaram”. Gn.35:29, fico a meditar no significado dessas palavras: “Ditosa velhice/velho e farto de dias.

Quem pensa que vida de aposentado é boa, muitas vezes se engana. Aposentado é aquele que alguns consideram que já não serve mais para nada, pelo simples fato de estar inativo. O idoso ou aposentado só tem prioridade em determinadas ocasiões e nem sempre! Como fila de banco, atendimento em repartição pública etc.

Os filhos, os netos e parentes já não lhe dão atenção como quando dependia única e exclusivamente dele. Faltam-lhe com respeito, já não pedem a bênção, ignoram sua presença em reuniões familiares e pouco se importam com o seu estado de saúde.

Certa vez um filho desalmado, de uma família que possuía bens, vendo sua mãe postada doente numa cama, enquanto os demais discutiam a possibilidade de levá-la a um centro especializado de saúde; esbravejou: “Por mim ela morre aí e não dou nem um passo”, com o dedo em riste apontado para mãe.

Costumamos dizer que o tempo mudou para justificar nosso comportamento diante do idoso ou do aposentado de nossos dias. Pode ser, mas, na verdade nós é que mudamos. Não admitimos em hipótese alguma ouvir os conselhos de quem passou pela vida, viveu e adquiriu experiência aos longos dos anos.

Isso não é de hoje. No passado duas tribos dos hebreus provocaram a divisão do reino de Israel, pelo fato de um filho desobediente ter atendido o conselho dos jovens da sua época, em detrimento aos ensinamentos dos mais velhos com suas experiências. Por este e outros fatores em nossos dias, a vida não tem sido fácil para o idoso ou aposentado.

Os que na família dedicam certo cuidado aos aposentados, muitas das vezes são mal vistos pelo demais. Recebe censura de toda ordem. Alguns julgam que é por interesse querendo botar a mão nos proventos do infeliz, outros não levam em conta e nem reconhece o benefício que se está fazendo ao ente querido. Finalmente, os que não fazem nada por ninguém, se ocupam dessas coisas. Eita! Vida difícil é de quem se aposenta!

É preciso lembrar que o aposentado foi aquele que contribuiu em muito para nossa sociedade e por muitos anos. Hoje só lhe resta a esperança de poder usufruir dos seus míseros proventos para sobreviver nesta terra com dignidade. Aqui no Brasil o Dia 24 de janeiro é a comemoração do seu dia.


Caminhar com Dignidade!

Parabéns Aposentados do meu Brasil!

Pombal, 28/01/2011
*RADIALISTA
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DE ONDE SURGE O PENSAMENTO?

CLEMILDO BRUNET*

“Pensamentos são as sombras dos nossos sentimentos - sempre mais obscuros, mais vazios, mais simples que estes.” Nietzsche

Parece algo abstrato, no entanto, o pensamento existe e é constante na vida de cada individuo. Difícil é imaginar que exista alguém que nunca tenha ocupado sua mente com um ou mais pensamentos. Mas, de onde vem o pensamento? Você já parou alguma vez pra pensar? De repente o pensamento surge leve e solto assenhoreando o nosso sentido. Em relação ao plano divino torna-se complicado para o ser humano compreender essas coisas.

Antes que o homem questione que DEUS não existe! A bíblia já revela o seu pensamento - “Diz o insensato no seu coração: Não há Deus”. Sl.53:1a. O homem está em um plano tão inferior ao seu Criador que o próprio Deus declara: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor” Is.55:8. No contexto desta passagem o Criador diz que, assim como os céus são mais altos do que a terra, do mesmo modo seus caminhos e pensamentos são mais elevados que os nossos e isso a ponto de restaurar nossa condição e pensamento.

“Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações”. Jr. 17:10.

Muitas questões têm sido levantadas sobre a origem do pensamento - filósofos e pensadores procuraram adivinhar de onde vem o pensamento humano e não obtiveram êxito. Depois de muitas discussões e poucas conclusões puderam perceber que na origem do pensamento está a origem da subserviência.

Segundo o filósofo grego Descartes, autor da célebre frase "penso, logo existo", o pensamento não se origina no próprio homem, e sim, fora dele, ou, em suas próprias palavras, em uma área distinta da área corpórea. Partindo de tal princípio chegamos facilmente ao encontro da manipulação do pensamento, ou seja, para manipular o pensamento não se precisa dominar a mente do ser humano, mas sim, dominar aquilo que lhe faz pensar, aquilo que lhe origina o pensamento.

Somos vulneráveis ao pensamento que nos assedia; ora pensamos mal, ora pensamos bem, contudo, nunca nos deixemos levar por pensamentos que nos leve a ruína. Impossível é evitar esses pensamentos, no entanto, podemos enxotá-los, assim como Abrão fez com as aves de rapina, que queriam devorar os animais esquartejados sobre o altar imolados em holocausto. “As aves de rapina desciam sobre os cadáveres, porém Abrão as enxotava” Gn. 15:11.

Paulo em sua carta aos filipenses exorta: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”. Fp 4:8.

Pombal, 19/01/2011
*RADIALISTA
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HOMENAGEM A SAUDOSA IVANIL SALGADO...

EMUDECE A VOZ DA GRANDE MULHER, NUBLANDO DE SAUDADES O CÉU DA NOSSA TERRA.

Ivanil Salgado (Foto recente cedida pela família)
Pombal, amanheceu de luto, pois perdemos uma grande mulher: educadora, escritora e conhecedora das artes e das letras. Ivanil Salgado, Mulher brava, inteligente e companheira de lutas, amada e respeitada por todos nós.

A nossa cultura amanheceu mais pobre, com a perda desta ilustre filha. Não foi por acaso que Deus permitiu tua cadeira na educação, ilustrando com amor as belas lições ministradas no Grupo João da Mata e no antigo Colégio Josué Bezerra.

Soubeste também encher de vibrações com eloquentes lições e brilhantes crônicas. A cada pessoa que se ausentava, aqui na terra, tu trazias a eloquente mensagem de despedida.

Partiste ,hoje, sem nenhuma despedida, pois o grande Pai já te esperava. A Ele pede também por nós, que te amava e te admirava.

Fui cativa deste amor e desta admiração. Mulher forte, respeitada e amada por todos. Serás a lembrança eterna da brilhante educadora, eloquente escritora e abnegada amiga.

Vai com Deus deixando-nos Saudosas e tua lacuna ninguém ocupará neste momento triste de tua partida.

Amo, amei e te amarei sempre.

Da amiga, CESSA LACERDA E FAMÍLIA.

O LIVRO VERNECK É UMA RELÍQUIA

Maciel Gonzaga (Foto)
Maciel Gonzaga*

A pessoa pode trocar de cônjuge, casa ou trabalho, mas a paixão por futebol permanece intocada. E paixão não se explica, acontece. A paixão do povo brasileiro pelo futebol é eminente em todas as partes do país. Seja no Norte, no Sul, Nordeste ou qualquer parte do país, a união selada por este amor incondicional torna-se nítida. Alguns externam esta paixão de várias formas.

Aliás, a paixão não é eterna, menos mal. Ela se transforma com o tempo em amor, algo mais duradouro e eterno, em chama. Quem vê um torcedor apaixonado por futebol sabe que isto deixa sua essência mais completa, para obter uma imensa sensação de plenitude. No futebol, este fogo nos leva ao entusiasmo, palavra derivada de entheos que significa deus interior. O historiador e professor do departamento de Teoria Literária da Unicamp (Campinas) Leonardo Affonso de Miranda Pereira explica que o futebol pode ser oficializado como a paixão nacional e os motivos para essa afirmação são quatro: sempre foi popular (fácil de praticá-lo), está relacionado à diversão (nas agremiações mais populares era comum misturar futebol e carnaval), é a representação do nosso país, pois a população se identifica com os jogadores (em 1938 o sentimento nacional se consolidou em torno do futebol), além da convicção de que o Brasil tem o melhor futebol do mundo.

Alguns sociólogos dizem que para conhecer uma sociedade, basta saber qual é o esporte mais popular do país. Acertaram em cheio, pois somos realmente um povo apaixonado por futebol onde os torcedores se esquecem de todos os problemas. Nosso futebol está associado à criatividade; uma mescla de arte corporal e mental cuja finalidade é obter a plenitude, a felicidade.

Pois bem! Desejava eu algumas informações sobre “Mané Maluco” para escrever um artigo sobre aquela figura que fez parte do nosso futebol e recorri aquele que é uma verdadeira enciclopédia viva quando se trata da história de Pombal: Verneck Abrantes de Souza, que eu me acostumei na infância a chamá-lo de Nequinho, desde o tempo em que a minha mãe Roza Gonzaga lavava roupas da casa de “Seu Lelé”, seu pai. Me disse Verneck durante a festa do “Filhos de Pombal” do ano passado que eu, talvez, seja a única pessoa que ainda lhe chama de Nequinho.

Em meio ao nosso contacto ele acaba me enviando o seu livro “Futebol Pombalense (1920-1990)”. Uma relíquia. Tive a oportunidade de conhecer fatos, histórias e causos, além de ver fotos de Agnelo, Natal Queiroga, Zaqueu, Perequeté, Zé Canário, Menininho, João Rapadura, Dilau, Carrinho, Panela, Buá, Luís de Camilo, Nêgo Adelson, Cachorra Velha, Tuzim, Carlos César, e tantos e outros da chamada velha-guarda do futebol. Até um primo meu que não o vejo há mais de 50 anos – Paulo Cubal – estava lá em um foto do Internacional Futebol Clube de 1971.

Fiquei emocionado quando me deparei com dois artigos meus – sobre Carlos César e Eurivo Donato – republicados no livro. É bem verdade que, antes, já havia lido os artigos de Paulo Abrantes e Eronildo Barbosa retratando a obra prima que era o livro e conceituando- o como “um livro é muito bom, onde as histórias permitem que o leitor faça uma bela viagem a Pombal de antigamente”.

Por isso, faço minhas as palavras do engenheiro Paulo Abrantes: “Parabéns, Verneck, pela simplicidade e pela iniciativa de reunir em livro, um elenco futebolístico que já tinha fugido da história, mas nunca de nossa memória. Agora sim, está registrado, e tão bem registrado para as gerações futuras, é tanto que o livro já se encontra com a primeira edição esgotada. Ninguém soube contar tão bem esta página futebolística de sua terra, como você, é um livro que tem história, enredo e cheiro de Pombal. Suas crônicas são providas de uma característica incomum, por retratar, com absoluta fidelidade, o perfil e hábitos de seus conterrâneos, companheiros de futebol, tornando os fatos e fotos numa leitura tão gostosa”.

Isso posto, tudo o que se falar de bem do livro de Verneck, ainda é pouco. Dediquei-me a uma leitura entusiástica no primeiro dia do ano de 2011, acompanhando todos os fatos a partir do final da década de 50 e anos 60, me sentindo presente ao “Aveloszão”. Esse livro é mais uma grande contribuição que o autor nos dá para o resgate da história de Pombal.

*Jornalista, Advogado e Professor. Natal RN.

DEZEMBRO EM POMBAL NA DÉCADA DE 1960

Jerdivan N. Araújo (Foto)
Jerdivan Nóbrega de Araújo*

Quando chegava o final do ano a cidade de Pombal ganhava novos ares. Eram os jovens que estudavam em João Pessoa e Campina Grande, que retornavam para as férias escolares, trazendo todo tipo de modismo, como toca disco portátil, gravadores de fita cassete, calças boca de sino, sapatos e cintos cavalo de aço, além de outras novidades que só eram vistas através das páginas da Revista Cruzeiro.

Os encontros dos jovens regressos eram sempre nas duas praças centrais, onde ouvíamos as "românticas" histórias, de fatos acontecidos na Capital.

Para os que ainda batalhavam no curso secundário, ralando nas cadeiras do Colégio Estadual, sob a batuta do Diretor Arlindo Ugulino, ouvir aquelas façanhas era como viajar para lugares distantes, sonhando sonhos alheios, mas, alimentado a certeza, que um dia eles seriam também protagonistas daquelas histórias.

Eram as histórias dos festivais de músicas; as prisões e exílio de militantes perseguidos pela Ditadura Militar. Eram os que traziam o último LP de Chio Buarque e tentavam interpretar suas letras de protestos nas suas sub-linhas e os que traziam as piadas subversivas de Juca Chaves e até exemplares do proibido Jornal “O Pasquim”, que era lido em rodas de amigos, onde se confabulava e filosofava a respeito do destino “Deste pais que vai para frente” ou do “Ame-o ou deixe-o” que era ostentado no vidro traseiro do fusca de seu Ubaldo. Lembro-me que um estudante trouxe um adesivo que dizia: “Já o deixei há muito tempo” e que, segundo ele, era usado em carros de brasileiros que circulavam nas ruas de Quito.

Para ser igual a “turma de universitários de Pombal” era preciso estudar muito e esperar o resultado do vestibular, que era aguardado com muita ansiedade por todos da cidade. Dos aprovados, os pais recebiam os louros da luta travada contra tudo e contra todos para “formar” um filho.

Era honra maior que se tinha ter um primogênito estudando na capital ou nas escolas agrícolas de Areia ou Bananeiras. Ter um filho que retornaria a Pombal com um “canudo” nas mãos, enquanto que os filhos das oligarquias sequer conseguiam concluir o fundamental, era uma vitória para àqueles homens simples da terrinha.

Nesta época, as casas se “vestiam” de amarelo ou azul nas pinceladas de pintores como Natércio, Chico de Tinane, Pixico e outros mestres pintores das Rua da Cruz e Rua de Baixo, para quem, por serem bons, nesta época não lhes faltavam trabalho. Era indispensável o “rodapé” em toda a sala e corredor, sempre na cor “vermelho telha'. Em Pombal, quando o sujeito é de baixa estatura ainda hoje costumam chamá-lo de “pintor de rodapé, mas, os mais jovens sequer sabem do que se tratava o tal de rodapé.

Era dezembro. Nos lares das famílias mais afortunadas, onde o piso era de ladrilhos feitos na “Fabrica de mosaico” de Chiquinho Formiga, ali de frente a casa de Joaquim Cândido, onde Negro Crushe rodava a prensa a tração humana, para fazer os ladrilhos, um a um, brilhavam belas árvores de Natal com dezenas de lâmpadas coloridas piscando, sempre expostas em local que pudesse ser vista por quem passava na rua.

Já nas residências dos mais desassistidos, destas “escrito em cima que era um lar”, a Árvore de Natal era feita com galhos secos, envoltos em algodão, com caixas de fósforos, que eram juntadas durante todo o ano e embrulhadas feito presentes com papel laminados de cigarros, dependuradas e balançando ao vento. Quem podia comprava na loja de Pio Caetano ou Bazar Imperial de Zuza Nicácio, belas bolas coloridas, o que era uma raridade.

E assim todos, ao seu modo, eram felizes, esperando que o ano vindouro trouxesse dias melhores ou que, pelo menos fosse igual ao quê chegava ao seu final.

Quem sabe no ano que vem um filho na Universidade!

*Escritor Pombalense.

ANO NOVO

Clemildo (Foto)
CLEMILDO BRUNET*

“Acabam-se os nossos anos como um breve pensamento” (Moisés)


Todo começo de ano é ocasião de renovar as esperanças. Isso me faz lembrar um tempo em que as lojas que comercializavam seus produtos com a clientela, tinham o costume de colocar bem visível na porta do estabelecimento um cartaz - “fechado para balanço”. Reporto-me a uma dessas ocasiões em que participei de um balanço feito pelas Lojas Paulista na década de 60. Além dos funcionários da casa, eram convocadas outras pessoas para a tarefa de medir os metros de tecidos de saldos de estoque e ser feita uma avaliação da margem de lucro alcançada no ano anterior.

Para que o expediente aberto ao público não fosse prejudicado, o trabalho era iniciado no sábado à tarde indo até a uma hora da manhã do domingo com direito a um lanche reforçado por volta das 23 horas. No outro dia, 07 da manhã reiniciavam-se as tarefas encerrando-se ás 17 horas. Na segunda, com o expediente aberto ao público um cartaz anunciava saldo de balanço com preços baixos.

Assim é nossa vida: Costumamos dizer que no ano novo é tempo de fazer reavaliações das coisas que aconteceram conosco ou com pessoas que nos são caras. Chama-se ano novo porque estamos no início daquilo que é desconhecido e nesse meio termo é necessário uma paradinha para o balanço que o percurso da vida exige a fim de saber se houve lucros, perdas ou danos em nossas atitudes para com as pessoas que nos cercam. Isolamo-nos às vezes em nosso mundo, sem nos importar com o que acontece de mal ou pior ao nosso redor e com o nosso semelhante.

Bom seria que nesse tempo de reflexão e perspectiva, depois do encaminhamento e troca de mensagens alvissareiras que nos foram remetidas e que remetemos também, houvesse um momento, que por mais curto que fosse, colocássemos em nosso ser a expressão:“Fechados para balanço”.

Se nas coisas que dizemos que nos pertence ou que possuímos de modo transitório, sabemos lhes dar o devido valor, porque não valorizarmos também a dádiva do Criador, como algo precioso, nosso raciocínio, observarmos e aprendermos com seus ensinamentos? Diz o apóstolo Paulo na sua carta aos romanos:

“Rogo-vos, pois, irmãos pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” Rm. 12:1,2

No último dia do ano de 2010, em uma das redes sociais da web que eu participo, recebi de meu amigo Vandinho uma mensagem por demais interessante, a qual transcrevo na íntegra para conhecimento dos nossos leitores, a fim de que façamos uma reflexão e alcancemos de modo digno o que almejamos neste ano novo.

A MENSAGEM DE VANDINHO:

Vandinho (Foto)
É costume no final de ano desejar um Feliz Ano Novo, mas o que isto significa? Falamos a mesma frase desde há muito tempo, mas o mundo não parece estar mais feliz a cada ano que passa. Continuamos a ter milhões de pessoas morrendo de fome ou doentes pela falta de uma nutrição mínima adequada, milhares sem teto perambulando pelas ruas, drogados em todos os cantos do planeta, pilhas de mortos e mutilados pelas guerras, famílias desesperadas pelo fantasma do desemprego e falta de futuro digno, desastres ambientais criminosos ou naturais de todas as espécies e assim por diante. Alguns dirão: Foi sempre assim! Sim, mas está piorando a cada ano.

O que está errado? Todos desejam Feliz Ano Novo, mandam cartões, trocam presentes e o novo ano piora no aspecto global. Para muitos o ano melhora e tudo de bom acontece. O meu questionamento é em relação ao planeta como um todo, olhando para todas as regiões onde exista um ser humano profundamente necessitado. O que está errado? Será que desejamos um Feliz Ano Novo, mas não fazemos nada para que ele se transforme e simplesmente ficamos assistindo o mundo desmoronar? Desejamos um Feliz Ano Novo e continuamos a bater na mulher, filhos, e ser o mesmo “machão" estúpido de sempre? Desejamos um Feliz Ano Novo e continuamos roubando e fazendo acertos “por baixo dos panos" e prejudicando alguém como sempre? Desejamos um Feliz Ano Novo e continuamos comercializando drogas para um batalhão de viciados? Desejamos um Feliz Ano Novo e continuamos a ser o mesmo preconceituoso e intolerante de sempre? O que está errado?

Será que infelizmente este “Feliz Ano Novo" é somente uma frase pronta que repetimos da boca para fora, pois é de bom tom fazê-lo no final do ano? Faz parte da nossa cultura e tradição, ficar repetindo como papagaios e mandando cartões e mensagens das mais variadas formas? Será que é isto? Somos papagaios que repetem frases e na verdade nem sabemos seu significado? Para ser de verdade um ano novo feliz, precisamos uma coisa fundamental: mudarmos nós mesmos. Não nos preocuparmos em repetir frases prontas ou mandar e-mails bonitos e cheios de estrelinhas piscando ao redor de taças de champanhe e pacotes de presentes.

O Ano Novo ou Réveillon é a celebração do término de um ano e o início de outro. A palavra réveillon vem do francês réveiller que significa acordar, despertar. Vamos neste final de ano, despertar para esta triste realidade e mudar. Deixar de lado os preconceitos, as mesquinharias, o ódio, a ignorância, a maldade, a brutalidade, o desamor, o conceito de “levar vantagem" e a intolerância. Desta forma, quem sabe teremos um Feliz Ano Novo de verdade.

Feliz Despertar a todos!

Fraternalmente: Evandro Junqueira Filho"

Mestre Conselheiro eleito do Capitulo "Cavaleiros Templários de Pombal.

UM 2011 - FELIZ PARA TODOS!

Pombal, 06/01/2011
*RADIALISTA
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O BOIADEIRO

Severino C. Viana
Por Severino Coelho Viana*

A expressão viva do cantor ou do repentista que lamenta as tristezas e enaltece as alegrias nas caatingas e nos cerrados do sertão nordestino, cuja inspiração é identificada como dom Divino. O aboio, por si só, é o cântico mágico pela criatividade.

Historicamente, a força propulsora da economia do Brasil Colônia que residiu muitos anos nos engenhos produtores de álcool e de açúcar, nas conhecidas moagens. Utilizando-se a força animal, por excelência, o boi, equivalente nos dias de hoje ao indispensável motor elétrico.

Para cuidar das boiadas e de outros animais do pasto, nasceu dessa atividade um tipo característico, conhecido pelo nome de Carreiros ou Boiadeiros.

O Boiadeiro é, antes de tudo, um homem forte, plagiando Euclides da Cunha, másculo, jovial, ingênuo, respeitador, valente, namorador, sincero, companheiro, resistente, trabalhador e muito festeiro, além de dançarino e tomador de pinga. Suas propriedades se restringem ao cavalo de sua predileção, a sua rede tarimba de capim seco, um céu cheio de estrelas e uma viola dependurada na parede da casa de taipa ou pendurada nas costas que carrega os lamentos de sua vida e testemunho plangente dos ardores e dos cantares.

Freguês acatado dos alambiques de todas as religiões, sua “prova” é disputada e, de acordo com seu gosto, garante a fama da cachaça local. Sua exclamação “arre égua” complementada pelo tom arraigado: “esta é boa!”, é selo de qualidade, daí passa para a mistura de mel e gotas de limão e, lambendo os beiços, esperto despede: “Adeus, meu camarada, até de repente, até outro dia, até outra hora...”

É contumaz tocador de viola, compulsivo dançador, cantador, súbito nos repentes, sem contar com chistes e provocações certeiras, maliciosas, mas sem dano maior à responsabilidade de quem quer que seja. Sua prenda maior, além da “menina do sobrado”, é ser amigo de todos, bornal sempre aberto a qualquer camarada que precise da rapadura, do jabá, da farinha e do imprescindível cigarro de palha.

Não se ilude com a posse das boiadas, das fazendas e estâncias do patrãozinho terreno. Hoje, num passe miraculoso, sai da campina astral e manifesta-se nos milhares de Terreiros, levando para todos: energia e orgulho pátrio. Mas também vê com tristeza que os “bóias-frias”, os “sem-terra” explorados, espoliados são parte de sua família, são manadas de almas à mercê dos latifúndios, multinacionais impiedosos, na gana do imperialismo dos bens produtivos de terra, bem comum de todos os brasileiros.

Os Boiadeiros são entidades que representam a natureza desbravadora, romântica, simples e persistente do homem do sertão, “o caboclo sertanejo”. São os Vaqueiros, Boiadeiros, Laçadores, Peões, Tocadores de Viola. O mestiço Brasileiro, filho de branco com índio, índio com negro e negro com branco e assim vai. Os Boiadeiros representam a própria essência da miscigenação do povo brasileiro: nossos costumes, crendices, superstições e fé. Ao amanhecer o dia, o Boiadeiro arrumava seu cavalo e levava seu gado para o pasto, somente voltava com o cair da tarde, trazendo o gado de volta para o curral.

Nas caminhadas tocava seu berrante e sua viola cantando sempre uma modinha para sua amada, que ficava na janela do sobrado, pois os grandes donos das fazendas não permitiam a mistura de empregados com a patroa. É tal e qual se poderia presenciar do homem rude do campo.

Durante o dia debaixo do calor intenso do sol, ele segue tocando a boiada, marcando seu gado e território. À noite, voltando para casa, o churrasco com os amigos e a família, um bom papo, ponteado por um gole de aguardente e um bom palheiro, e nas festas muita alegria, nas danças e comemorações. Sofreram preconceitos, como os “sem raça”, sem definição de sua origem.

Ganhando a terra do sertão com seu trabalho e luta, mas respeitando a natureza e aprendendo, um pouco com o índio: suas ervas, plantas e curas; e um pouco do negro: seus Orixás, mirongas e feitiços; e um pouco do branco: sua religião (posteriormente misturada com a do índio e a do negro) e sua língua, entre outras coisas da interação cultural. Dá mesma maneira que os Pretos-Velhos representam a humildade, os Boiadeiros representam a força de vontade, a liberdade e a determinação que existe no homem do campo e a sua necessidade de conviver com a natureza e os animais, sempre de maneira simples, mas com uma força e fé muito grande.

O caboclo boiadeiro está ligado com a imagem do peão boiadeiro - habilidoso, valente e de muita força física. Vem sempre gritando e agitando os braços como se possuísse na mão, um molho de corda grossa para laçar um novilho. Sua dança simboliza o peão sobre o cavalo a andar nas pastagens. Enquanto os “caboclos índios” são quase sempre sisudos e de poucas palavras, é possível encontrar alguns boiadeiros sorridentes e conversadores.

A VIOLA - Dimas Batista Patriota.

Velha viola de pinho, companheira!
De minh’alma, constante e enternecida,
Foste tu a intérprete primeira
Da primeira ilusão de minha vida.

Eu, contigo, cantando a noite inteira,
Tu, comigo, tocando divertida,
Sorrias, se eu louvava a brincadeira,
Choravas, se eu cantava a despedida.

Nas festas de São João, nas farinhadas,
Casamentos, novenas, vaquejadas,
Divertimos das serras aos baixios!

Perlustrando contigo pelo Norte,
Foste firme, fiel, feroz e forte,
No rojão dos ferrenhos desafios!

João Pessoa, 05 de janeiro de 2011.
*Promotor de Justiça e escritor.

NINGUÉM ESQUECE A PRIMEIRA VEZ

Prof° F. Vieira
Por Francisco Vieira*

Segunda a ordem cronológica, tudo que é primeiro é início de alguma coisa. Entretanto, por ser primeiro nem sempre é o melhor, mas representa algo inesquecível que marca nossa memória. É sinal de que ninguém esquece a primeira vez.

Quem não lembra o primeiro brinquedo, a primeira namorada, o primeiro beijo, a primeira transa? Quem não tem na lembrança o primeiro puxão de orelhas ou as primeiras chineladas dos pais? Como poderia esquecer se ainda dói. Se não deixaram sinais no corpo ficaram marcas na mente. Seja lá o que for, a primeira vez permanece indelével na memória.

Na adolescência, como a maioria dos jovens, sentia atração por certas coisas chegando a manter por elas verdadeira obsessão. Assim, desde cedo, mantive o desejo de possuir um terno, isto é, vestimenta completa, composta de calça, paletó, colete e gravata. Trata-se de traje usado para momentos especiais como casamentos, batizados, formatura e até para o exercício do sublime ato democrático do voto. Queria me vestir como as autoridades da época. Além de políticos se via também juízes, promotores, advogados, pastores, e outros que caminhavam imponentes pelas ruas da cidade chamando a atenção das pessoas.

Obcecado alimentei a idéia por muito tempo, pois achava inexplicavelmente interessante uma pessoa uniformizada. Acho até que paletó e gravata fazem as pessoas se sentirem diferenciadas. O traje é por si só um cartão de apresentação que além de elegância imprime poder, impõe respeito, imponência.

Anos 60/70. Lembro-me perfeitamente que além de meu pai havia ainda dezenas de comerciantes como: Napoleão Brunet, Dorgival Mota, Cesar e Nô Lopes, Afonso e João Josias e outros, todos elegantemente trajados na festa de fundação da Associação Comercial de Pombal e posse de seu eterno presidente Zuza Nicácio.

Recordo-me igualmente de José Benigno de Sousa – Seu Lelé – vestido como um lorde nas sessões da Câmara de Vereadores. Como poderia esquecer as figuras emblemáticas de João Alfredo, Carneirinho e Caboclinho que assim se vestiam diariamente, mesmo desafiando o sol causticante e o calor ofegante da região. Nesse aspecto, Caboclinho tornou-se uma referência e motivo de brincadeira. Em tom jocoso diziam que para não tirar a gravata ele a engomava no pescoço.

1.965. Finalmente a concretização do meu sonho. Como presente de quinze anos recebi dos meus pais o tão sonhado terno completo. O tecido era tropical de cor azul-marinho, comprado na Loja dos Pobres de Seu Severino Ugulino. A confecção ficou a cargo de Félix Tavares de Araújo ou Félix de D. Lourdes. Quanto ao preço foi acertado entre ele e meu pai, cujo valor não me foi informado e nem mesmo procurei saber. Daí, até a prova final e o recebimento foram quinze dias de espera e intensa ansiedade. Também não foi menor a espera pela foto em preto e branco, pose artística, tirada por Léo Formiga, colocada em porta-retrato e oferecida depois com frases amorosas a algumas namoradas.

Igualmente prazeroso foi vestir o almejado terno em público pela primeira vez. O grande momento se deu na festa de aniversário de Maria do Socorro de Maurício Bandeira onde bebi, dancei e paquerei. Fiz de tudo um pouco. Senti-me o dono da situação. Aí sim, o sonho estava completamente realizado. Pelo menos nessa ocasião me senti grande e importante diante dos colegas; tão grande quanto aqueles aqui citados.

Na vida acontecem fatos inesquecíveis. Alguns gostaríamos que durassem para sempre outros, que fossem esquecidos ou que nunca tivessem acontecido. Mas como esquecer se deixaram marcas que resistiram ao desgaste do tempo! O importante é que aprendemos com todos, pois cada um deixa uma lição, um ensinamento. Por isso é que hoje pensamos no amanhã lembrando o ontem.

A vida é feita de momentos sendo que muitos passam e outros ficam. Alguns são lembrados com saudade, principalmente quando se trata da primeira vez, porque A PRIMEIRA VEZ NINGUÉM ESQUECE.

Pombal, 04 de janeiro de 2011.
*Professor, Ex-Diretor da Escola Estadual João da Mata, Ex-Secretário de Administração do Município de Pombal.