CLEMILDO BRUNET DE SÁ

Folclore amestrado, é a mãe!

João e Marilene Costa
João Costa*

Recorrentemente, vou à Festa do Rosário de Pombal, especificamente para a procissão e concluo que, com o passar dos anos, a Igreja Católica, os poderes públicos a PbTur e até parcela da população, tratam o folguedo popular, o rosto mais expressivo e significativo da história de Pombal, como “miquinhos Amestrados”. Refiro-me aos grupos folclóricos, de raízes negras, Os Pontões e Os Congos – sem eles e suas manifestações Pombal se reduz culturalmente a muito pouco ou quase nada.
A construção da Igreja do Rosário é de 1721, tem uma história de luta de escravos e, na sequência, de ex-escravos e descendentes na construção de uma identidade cultural e religiosa. Sobre a História de Pombal, busquem no historiador Wernek Abrantes que o essencial de Pombal e sua cultural esta lá nos seus escritos. Como expressão da nossa cultural, como identidade e, até como vigor do cristianismo católico, os Congos e os Pontões com seus rituais, são de uma pujança arrebatadora que se impõem no mosaico social e,
naturalmente, injusto com eles.
              Da margem para o centro da administração pública, a Festa do Rosário e seus folguedos, parecem até um estorvo, tal a indiferença. Milhares de católicos ou não cristãos, procedentes dos lugares mais distantes do país, chegam a Pombal em romaria, ou para rever amigos ou familiares. Agregue os turistas e pesquisadores que desembarcam em Pombal, para registrar o avassalador cenário arquitetônico que é o Largo do Rosário com sua cadeia e praças e documentar o folguedo. Depois fazem caminho de volta às suas cidades e estados, planejando uma viagem de volta a Pombal, que mais parece o eterno retorno.
A cultura popular, os rituais religiosos, a arquitetura da cidade, nada disso parece ter importância para o poder publico municipal, e muito menos para a PBTur, que ignora os folguedos de Pombal – literalmente para não dizer maneira vergonhosa e acintosa. Talvez por pura ignorância cultural, certamente por que os folguedos do Rosário se manifestam longe demais do mar.
Uma prefeitura que sequer decora a cidade – já fez isto antes – nem busca propor ou criar condição para a consolidação desse bem cultural nas escolas, certamente não cumpre o seu papel. Não se pode culpar apenas o pastoril político, que é natural. Mas tratar a Festa do Rosário e seus folguedos como estorvo, beira ao descaso, por ser uma ofensa.
A PBTur não levar em consideração a importância da Festa do Rosário é decepcionante e falta de respeito para com a cultura. Alguém se queixou, acertadamente, que a PBTur sequer saiba que a festa exista, daí o jornal A União, não dedicar uma escassa reportagem sobre o evento, nem muito menos os responsáveis pela propaganda institucional do estado incluir a festa e seus folguedos na divulgação desse bem cultural. Certamente por não ser obra de pedra e cal e não resulte em votos, ou muito menos para dar um brilho, ainda que falso, ao governante da hora.
A Diocese e a paróquia do Bom Sucesso, acharem que a Festa do Rosário resume-se a um novenário, uma missa campal e a quermesse de arrecadação é um desrespeito a quem deu origem e segue dando sentido a festa – A Irmandade do Rosário.
A missa campal, o momento que se segue à procissão é um despropósito. Os fieis suportam o sol e o calor, porque está na tradição e ninguém tem o direito ou interesse de reclamar do tempo, mas uma homilia extensa e absurdamente de exaltação ao pároco, até em canto religioso; seus feitos e descontextualizada não é nada cristão para os padrões desse novo Papa Francisco, que pede objetividade nas pregações, contextualização e criação de imagens nas mentes e corações dos cristãos católicos.
Não faz nenhum sentido e até um absurdo é, deixar que Congos e Pontões se apresentem após a missa, quando não tem mais povo no Largo do Rosário, inclusive crianças urbanas e rurais, que deixam de assistir a um folguedo popular que condensa a cultura negra, a religiosidade como manifestação. No mais, Viva Nossa Senhora do Rosário, Viva a Irmandade do Rosário!    

*João Costa é radialista, jornalista e diretor de teatro, além de estudioso de assuntos ligados à Geopolítica. Atualmente, é repórter de Política do Paraíba.com.br

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