CLEMILDO BRUNET DE SÁ

A Ditadura Militar nas reflexões de um sacerdote católico

Manoel Vieira Guimarães
Padre Manoel Vieira Guimarães*

Fico entre triste e assustado quando vejo alguém defender a Ditadura Militar que se instalou no Brasil em 1964, com o simplório argumento de que naquela época não havia corrupção, nem roubo... Que o Brasil vivia às mil maravilhas, que até hoje não há ninguém prejudicado pelos “doces e gentis” militares e desejam ardentemente sua volta.
Bom, só para refrescar a memória deste povo e a título de contribuição para a reflexão de quem quiser:
1. Havia roubo e corrupção, sim. Só que não eram (e não poderiam ser) divulgados porque a Imprensa estava sob censura.
2. O “milagre econômico” foi uma farsa e todo mundo sabe disso.
3. A Educação talvez tenha sido o setor mais prejudicado. O grande Pedagogo pernambucano Paulo Freire, admirado e reconhecido no mundo todo, foi preso e depois exilado, por ter criado um método eficaz de alfabetização de adultos.
4. A cultura foi castrada... Grandes nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e
Chico Buarque de Hollanda, entre outros, foram para o Exílio.
5. Todos os espetáculos eram censurados. Em 1974 eu estava em cartaz no Rio de Janeiro com a peça “A motocicleta na névoa”, com o Grupo Teia e nas vésperas da estreia tivemos que apresentar o espetáculo para os censores, que cortaram várias falas consideradas por eles como subversivas. Resultado: o texto foi prejudicado/mutilado e já não havia mais tempo para se consertar. Tivemos que apresentar assim mesmo.
6. Muitas pessoas foram presas injustamente e barbaramente torturadas. Colocaram uma freira nua, numa cela podre e puseram sobre o corpo dela: lacraias, escorpiões e cobras. O irmão de uma amiga minha que fazia Odontologia em Natal, foi preso, amarrado com correntes e levado de avião para Recife. Em alto mar jogaram-no amarrado. Em Recife Cajá, da Pastoral da Juventude do Meio Popular foi preso e brutalmente torturado... Na mesma cidade Pe. Henrique, que também trabalhava com jovens, foi preso, torturado e morto. Só para citar alguns casos que eu conheci de perto. Aqui em Mossoró tivemos o caso emblemático de Anatália Melo. Quem quiser saber de mais casos como estes procure ler o Dossiê “Brasil Nunca Mais”, organizado pelo Cardeal D. Evaristo Arns, de S. Paulo.
7. E o que dizer das mães e pais que até hoje não sabem do paradeiro dos seus filhos, cujos corpos “sumiram”?
São tantas e tão desumanas as crueldades praticadas por eles que fico besta quando querem inocentá-los. Os ditadores podem até ter saído do poder pobres... Mas isso não os inocenta dos outros crimes que praticaram: prisões arbitrárias, torturas e mortes de inúmeros inocentes.
Muita reação ontem e hoje com relação à postagem que eu fiz sobre a Ditadura Militar e a defesa que alguns fazem, defendendo-a como solução para o nosso problema político atual.
Uma das "justificativas" foi a luta armada que surgiu como única alternativa para se retornar ao Estado de Direito. Houve, de fato, sequestros, morte, terror. Não foi a melhor saída. Mas para muitos era a única maneira de enfrentar a truculência dos militares. Eu, pelo menos, prefiro as vias pacíficas.
Muitos padres, bispos, freiras e agentes de Pastoral foram chamados de "Comunistas". Nem o Papa Paulo VI escapou.
Nos 50 Anos da sua Encíclica “Populorum Progressio”, Gianni Valente, no dia 26/03/2017 escreveu:
"Com a linguagem da teologia católica mais consolidada, Paulo VI também
• encara a possibilidade histórica de que a raiva pela injustiça e pela exploração possa provocar insurreições violentas: a avareza obstinada dos ricos não poderá senão suscitar “o julgamento de Deus e a cólera dos pobres, com consequências imprevisíveis” (n.49).
• A insurreição armada, embora indicada como fonte de novas injustiças e ruínas, é justificada “no caso de uma ditadura prolongada que atente gravemente contra os direitos fundamentais da pessoa e prejudique de forma perigosa o bem comum do país”.
A mesma possibilidade já tinha sido reconhecida e justificada, nos mesmos termos, por São Tomás na Summa Theologica.
Assim, citando São Tomás e os Padres da Igreja, Paulo VI quebrava o dogma cultural dos tempos modernos segundo o qual a defesa da Tradição, na Igreja, deveria coincidir necessariamente com uma visão cultural e política “de direita”. “O Papa lombardo repetia que a preferência pelo pobre, até nas suas consequências “subversivas”, é uma escolha de Deus, inscrita no mistério da sua predileção”.
O problema é que muita gente chama qualquer um de "comunista" e com um sentido fortemente pejorativo.
Aconselho, então, a antes de falar e escrever sobre este assunto, se informar primeiro.
*Escritor e Sacerdote

Texto enviado por José Romero Araújo Cardoso

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