A ESCOLHA DE SOPHIE EM COVID-19*
Por
José Cezário de Almeida*
Em tempos de 1981-83, com
menos de 16 anos de idade, vivi uma situação análoga ao isolamento social
comunitário quando fiquei no internato estudantil da Escola Agrícola Vidal de
Negreiros, campus da UFPB, na cidade de Bananeiras, PB, junto aos colegas do
Curso Técnico em Agropecuária - o concluímos em 17/12/1983. Eu, felizmente, fui
o orador oficial da turma concluinte. O CAVN, de regras e disciplinas rígidas,
aos moldes dos colégios militares à época, liberdade velada, todavia, um
colégio excepcional, com bons professores, funcionários amigos e colegas-irmão
de curso, que dia-a-dia superavam as diferenças apostas à convivência do
internato de alojamento integral. Tínhamos liberdade de uma única saída semanal
de poucas horas às cidades de Bananeiras e Solânea, à missa, ao culto, aos
correios para a postagem de uma carta às mães ou às namoradas, atitudes que se
somavam às inúmeras peculiaridades da convivência, necessariamente harmônica
sob os auspícios de expulsão da escola, passos que nos conduziam à irmandade
inesquecível revivida nos dias atuais, sensivelmente.
Muitos desistiram! Não
suportaram a tristeza, ansiedade, depressão, enfermidades - a maioria viroses
que nos levavam a quadros febril, infecções retrofaríngeos e outras morbidades.
Vi garotos da minha idade em prantos, copiosamente! Desistindo do curso, e
pensei, nisso também! Assustava-me tais inquietações impactantes à vida
adolescente de estudante por busca promissora. De sorte que, não havia chance à
desistência do curso que justificasse para os familiares e à escola de origem “Colégio
Josué Bezerra” de Pombal, PB, que comemoraram a minha aprovação seletiva ao
ingresso àquele tão sonhado colégio, principalmente para alunos carentes de arrimo
financeiro, sem livros, vestimentas, alimentos necessários à sobrevivência em
seus rincões. No Sertão, onde residia, assolava-se intempéries naturais,
resultando em cáustica estiagem - seca, as cidades ameaçadas e atacadas pelos
“cassacos”, “miseráveis”, assim, eram chamados os homens no flagelo da fome.
Aqui me situo à época!
O novo ambiente escolar abrir-se-ia
os olhos à condição que se confundia entre SOLIDÃO e SOLITUDE! Sem, compreender
essa dualidade paradoxal, impendia discerni-la. Fui à biblioteca várias vezes,
me escondi por traz das prateleiras à busca de livros e leituras jamais lidadas
antes, algumas até então não permissivas, a exemplo, “O Capital” de Karl Marx
(com destreza li que o dialético passou parte da vida afundado na miséria,
sucumbindo à família no desespero, vez que, se recusava a trabalhar em função
que não fosse intelectual). Indaguei-me: será que passarei o cálice que inspira
à vida a cicuta que subleva à morte? Havia
uma razão forte que me impelia à escalada insaciável pelo saber, ao exercer um
apostolado de incertezas pelo sim, pelo não; porque não havia outro tirocínio,
um lugar ao sol.
A leitura obstinada nos umbrais do CAVN ardia à intelectualidade, sonho de juventude! Mas, tive acesso à brisa da leitura detida do compêndio “Como evitar preocupação e começar a viver” de Dale Carnegie; “O evangelho segundo o Espiritismo” de Allan Kardec; e à Bíblia Sagrada, que restritivamente a entendia. O meu ego de instinto dilemático não encontrava esteio nessas literaturas, ainda muito complexas ao meu nível de escolarização, me considerava um anagrama ante complexidade desses livros, porém me fortalecia a motivação de sainte do então 1º grau à Escola de maior referência do Nordeste. Corroborado auditivamente pelas mensagens estimulantes da ex-professora de Português, Cessa Lacerda, que subscreveu a minha redação que fora premiada (1º Lugar) nas escolas da Paraíba em 1980, com o título “Contribuinte do Futuro”. Premiação pioneira que tem um excelente oxigênio à luta em bravata pelos saberes que os perquiro com admiração aos dias atuais.
Auge aferir que, SOLIDÃO e
SOLITUDE eram sensações indescritíveis dos meus sentimentos intrínsecos, com
reflexos sobre o soma e alma clemente. Ante um novo mundo que abrir-se-ia às
minhas vontades e escolhas, compensava impingir todo azo temporal aos estudos
de inúmeras disciplinas do curso, conteúdos imensos e exigências de ligeira
diferença para menos na possibilidade de cumpri-las. Sobrepujante resquício de
ócio propiciava à escrita de cartas para a família, poemas, frases, pensamentos
indeléveis sem perspectivas aparentes. Era Solidão ou solitude?
Ao vislumbrar os cenários de
continuar na escola ou retornar às origens afetava-me o impacto da autodecepção
e o enfretamento das abordagens depreciativas, uma delas: “poucos acompanham o
nível daquela escola”. Que desafio! Há saída? Não, não há! A solitude me
direcionava à uma força vital de “tunelamento quântico”, uma simples partícula
com o poder de escapar de regiões cercadas por barreiras potenciais
energizadas. Era uma incrível força vital cuja motricidade era indescritível.
Sozinho! Era a reflexão dada na leitura de Blaise Pascal – 1623-66 (estudos do
método científico, escritor e físico), o qual alude inspirativas: “todos os problemas da humanidade resultam
da incapacidade do homem de sentar-se calmamente em uma sala, sozinho”.
Exerci essa práxis inconscientemente para concebê-la. Era uma escolha entre o
bem e o mal! Quando me formei em 3º grau, 10 anos depois, anterior ao exercício
atual do magistério das ciências biológicas, fui professor de Física havia 06 anos.
Compreendi Pascal.
Solidão ou solitude? Reverbere-se,
aqui, três situações dadas à solidão: solidão da anomia, inerente ao
isolamento; solidão do sonhador - do homme
révolté, revoltosa; a terceira solidão vem das ideias de Epiteto, que é a
sensação de ser um entre muitos. É a solidão da diferença. Cada uma dessas
solidões tem uma história. No mundo antigo, a solidão imposta pelo poder era o
exílio; no século XVII, na França, a solidão imposta foi o banimento para
regiões longínquas. Modernamente, a solidão é a sensação de solidão no meio da
massa. Lembremo-nos o isolado sonhador que os poderosos temiam - Sócrates, que confrontou
as leis estatais ao discurso de lei superior, um ideal contra uma ordem
estabelecida. Para Foucault & Sennett, a solidão da diferença, é a que
deflui de uma vida interior maior do que as reflexões de outras vidas.
Hodiernamente, nos deparamos
com terminologias pouco usuais, como: isolamento social, distanciamento social,
distanciamento inteligente, horizontal, vertical, e afins. Usos em massa de
máscaras, luvas, álcool em gel. Hashtag “fique
em casa”. Em cenário de pandemia, que urge a incerteza pela vida, o ser humano
vivencia um momento cavernícula imposto pelo medo, ansiedade, angústia, com
severos riscos à vulnerabilidade depressiva. De modo que, o ser humano se
depara em inquietudes que se traduzem a fadar-lhe à solidão ou à solitude,
ambas com efeitos atemorizadores.
Concebe-se que, é solidão a
dor de quem está sozinho, eleva-se à qualidade de estar sem ninguém. Solitudnem, solus, solitatem, que são
formas latinas etimológicas. Cite-se Michel
Foucault, brilhante, admirado como o prodigioso pensador da filosofia
contemporânea, publicou vários livros, tornou-se referência obrigatória na filosofia,
história, sociologia, política, psicologia, direito, saúde e quaisquer outras
ciências humanas. Foucault viveu duas vidas: a da superfície - de aparências,
desde a juventude católica ao estrelato acadêmico - e a das profundezas – do
submundo, desde o ódio ao pai aos guetos de drogas e triste sadomasô. Viu-se em
profunda solidão, certamente.
Concebe-se que, é solitude,
de latim solitudine, para expressar a glória de estar sozinho,
conforme manifesta Paul Johannes Oskar Tillich (1886-1965). Segundo dicionário
Michaelis, solitude tem uso poético, que remete à percepção algo novo, à
apreciação e criação da beleza, inferindo ao tempo e ao espaço a produção
daquilo que é útil e belo; também propicia ócio. É aceitar-se em estado pessoal ser diferente e
distinto dos seus semelhantes, com desdém à aprovação dos demais, trata-se de
alteridade horizontal.
Emblemático!
O que há não incomum na
solidão ou solitude vivenciada interim à escola agrícola pessoalmente; com o
recôndito sofismático romance “Sophie’s
Choise” – A Escolha de Sophia em tempos de pandemia Covid-19? Perfaz-se a
escolha de “um”, “único”, revestido de pessoalidade tragicamente sublime. Agir
por si só, tanto na Solitudnem quanto
na solitudine. Trata-se da escolha do
bem ou do mal, sem a percepção de discerni-los.
A
Escolha de Sophie
A expressão "A escolha de Sofia" invoca tutela imposta à
decisão dificílima, sob coação moral irresistível que custa enorme sacrifício
pessoal. Ainda, remontando a têmpora do renomado colégio, tínhamos um espaço
único reservado à TV, apenas, o horário do noticiário noturno, inclusive aos
domingos. Numa dessas noites vi o release do noticiário televisivo do filme que
conferiu a Meryl Streep o Oscar de melhor atriz. A trama de 1982, dirigida por
Alan J. Pakula, a partir do romance de William Styron (escrito em 1979). A
tragédia vivida por Sophie Zawistowska, sob o título original Sophie’s Choise.
À época não assistimos ao filme. Dia seguinte, não hesitei em ir a
“nossa alexandrina biblioteca”. Ali estava despojado na prateleira o best seller a minha espera. O debruço à
leitura foi necessário e insaciável na urdida e premente decisão intrínseca e
inadiável da solidão ou solitude. Assim, delineava-se minhas convicções tenras de
acepção real de escolha entre joio e trigo da ficção aposta por Styron, que
entrelaça os tecidos da sensualidade poética e romanista às amarguras
horripilantes de “Sofia” ante a escolha não menos trágica da sabedoria
Salomônica, mas de submissão de uma mãe na perda dos frutos ventral aos
horrores do Nazismo em Auschwitz.
A historicidade originária da expressão “A Escolha de Sofia”, tradução
portuguesa, induz à lembrança dos arruinados e devastadores horrores de
degradação e desprezo humano, envolvente acontecimento trágico, ocorrido nos
Campos de Concentração do Nazismo, em Auschwitz, numa época em que perpetraram-se
os mais desumanos e cruéis crimes da história da humanidade. Sophie, polonesa, que sob acusação de contrabando, é presa com
seus dois filhos pequenos, um menino (Jan) e uma menina (Eva), no campo de
concentração alemão da II Guerra Mundial. Enfática, a história retrata a
atitude de um sádico oficial nazista que dá a Sophie a opção de salvar apenas
uma das crianças da execução, ou ambas seriam mortas, obrigando-a à terrível
decisão da escolha de levar uma de suas crianças de 10 anos de idade à
truculenta entrega à morte crudelíssima na terrível câmara de gás, coligindo condenação
e execução na fase de acusação. Sophie, a
posteriori, é inocentada e absolvida de contrabando.
A história de Sophie revela um dos mais cruéis sofrimentos a que o ser
humano pode ser submetido. Sabe-se que, essa modalidade de pena foi
deliberadamente adotada nas acusações macabras do holocausto.
Sophie, ante à situação
desesperadora salvou o menino Jan por considera-lo com maiores condições de
sobreviver aos horrores do holocausto e que ainda viveria. Doeu-lhe presenciar
a cena de crueldade jamais imaginada: a filha Eva, brutalmente levada ao
trágico fim. Dizem os relatos que a cena vivida por Sophie, a lembrança do
último olhar de sua filha, o desespero do filho, a atormentaram todos os dias
de sua vida.
Não obstante, deparar-se com uma decisão quase impossível de ser tomada
por fé de ofício ou impelido por forte coação
em optar por duas escolhas igualmente perturbadoras, entre os estremos
de vida ou morte, que atualmente ameaçam os médicos da linha de frente à
COVID-19 está longínquo da paradoxal compreensão entre a solidão e solitude, as
sensações por mim concebidas em tempos colegiais que induziriam extremada
decisão futurista, capaz de comprometer a vida no campo das realizações
profissionais e intelectuais, imagine-se, absurdamente, a destreza antagônica
humanitária ao colidir as decisões entre duas vidas humanas, qual será
sacrifica.
Atualmente, não análoga à Auschwitz do holocausto repugnante; mas,
circunscrita à esfera do provável humanitário “estado de necessidade”,
reclamado pelo direito contemporâneo como causa de antijuridicidade, cuja
teoria unitária exclui a ilicitude do ato em sacrifício de um bem jurídico de
valor igual ou inferior ao preservado, vê-se propínquos relatos de alguns
países impostos pela pandemia da COVID-19 aos profissionais de medicina à
crudelíssima escolha de Sophie.
Decidir-se por salvar vidas seletivamente, sob critérios de mensuração
subjetiva das chances de sobrevivência de cada paciente, em face a idade ou por
comorbidades associadas à doença e outros critérios, mesmo como base em
consensos médicos, requer aplicações do direito inalienável à vida e de elevados
referenciais éticos. Registre-se que, tais práticas compelidas aos profissionais
de saúde, advém da tentativa de “salvar vidas” de pessoas submetidas à
crucífera intubação, entre a vida e morte, levadas ao calvário de não poder se
opor à escolha, por sequer existir duas alternativas extremistas, senão à
internação possibilitada por mecanismos artificiais de suprimento de oxigênio
e, necessariamente, por ventiladores mecânicos na movimentação dos alvéolos
pulmonares, sem os quais ou desliga-los a vida se esgota biologicamente.
Nos dias tenebrosos de COVID-19 não há escolhas! Os relatos de artigos
científicos e de autoridades legam-nos às decisões de Sophie? Diz a prefeita Cynthia Viteri, de
Guayaquil, no sudoeste do Equador, afetada como nenhuma outra cidade latina a
força destruidora da pandemia do novo coronavírus levou hospitais e cemitérios
a colapsar, e conjectura: “Não há espaço nem para vivos, nem para mortos”.
À guisa de “A escolha de Sophie”, autoridades e líderes do Mundo
afirmam que os médicos em vários países poderão ser obrigados à decisão de escolha ao martírio
indelével da morte, se crianças, jovens ou idosos, homens ou mulheres, uma
prática involuntária do darwinismo seletivo, sobrepujando-se os mais fortes e
sucumbido os fracos, uma negação não singular à decisão de Sophie, porém com
sofrimentos irreparáveis aos profissionais de saúde médica e às famílias que
não subjugaram as decisões. Nessa senda catastrófica, revelou-se ao mundo, que
os cadáveres de Covid-19 e de outras patologias, em Guayaquil, foram
dispersados nas ruas, moribundos abandonados. Não houve a chance de escolha de
familiares ao sepultamento e ao luto de negação peremptório. Intenso drama
vivenciado pelos médicos tem sido discernir “quem vive e quem morre”, por
insuficiência absoluta da rede de saúde. “A morte quase certa de um impõe-se a
vida de alguém com mais chance de sobreviver”.
Com o crescimento exponencial de casos na Itália, um dos países mais
afetado no mundo, diante da sobrecarga dos leitos de UTI, admitir-se-ia aos
profissionais de saúde ter de tratar aqueles com “maior chance de
sobreviver”. O mundo passa a viver uma
CATÁSTROFE com a COVID-19. Vênia as manchetes: Irã abre valas visíveis do
espaço para enterrar vítimas do coronavírus; Plano de emergência de Nova York
prevê enterros temporários em aberturas de trincheiras em parques; Manaus, AM,
instala câmaras frigoríficas para corpos de vítimas de Covid-19. O prefeito de
Manaus, pela rede CNN, em 21 de abril, relatou a ocorrência de cerca de 100
sepultamentos por dia na capital. Modelos matemáticos apontam que o sistema de
saúde brasileiro vai colapsar entre abril e maio, as pessoas vão morrer em
casa.
Em Brasil, situação análoga desafia as autoridades sanitárias. A rede
de atendimento de leitos de UTI é escassa e esparsa no território brasileiro. O
sistema de saúde não tem suporte substancial no enfretamento da pandemia e o
avanço da doença o fragiliza vorazmente. Autoridades brasileiras anunciam que a
maioria da população passará pela doença. Que horror! Estamos à porta de “A
Escolha de Sophie”. Creio que a medicina brasileira não o faria. Incumbir-se-ão
às famílias a tarefa. QUEM DE NOSSA CASA
VAI TER A CHANCELA DO TRATAMENTO?
*José Cezario de Almeida, PhD / USP
Professor do Mag Superior Federal
Biólogo e Advogado.
A ESCOLHA DE SOPHIE EM COVID-19*
Reviewed by Clemildo Brunet
on
4/23/2020 08:41:00 AM
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4/23/2020 08:41:00 AM
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