CLEMILDO BRUNET DE SÁ

CAMPONÊS

Severino Coelho Viana
Por Severino Coelho Viana*

O sertão nordestino é uma região de contrastes: inverno e verão, fome e abundância, paz e violência. Convive com o verdejante dos campos ou a cor cinza dos galhos secos.
O mato, o roçado, o matuto, o caipira, o homem do campo, o sertanejo, o rio, o açude, a cacimba, árvores frondosas e rasteiras são as fontes da beleza rústica da corajosa Região Nordeste.
O tradicional roçado que, muitas vezes, cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, ora verdes ora cinzentos, formam o cenário que traduz sentimento de alegria contrapondo-se ao coração de sofrimento, tristeza e dor. Apesar de todas as contrariedades, o sertanejo, pelo lado místico ou pela crença, traz dentro do peito a fé e
a esperança de suportar os sacrifícios e superar os obstáculos.
 As mãos calejadas, os pés estropiados, os dentes cariados, a mente sadia e o sorriso nos lábios não o fazem desistir dos seus instrumentos de trabalho guardados em amontoado na esquina do casebre: machado, foice, martelo, roçadeira, enxada e chibanca ou o arado exposto no terreiro.
Tudo gira em torno da modéstia e da simplicidade da vida: a casa, o homem, a mulher e os filhos. Geralmente, a casa de taipa coberta de sapé e o chão batido de barro vermelho. E a mobília: o rádio tocando na sala para ouvir o autêntico forró pé de serra e os repentes dos violeiros, os chamados cantores de viola. O pilão, o moinho, o fogaréu, o pote de barro, a panela, a tigela, a concha, o caneco e o caldeirão formam a mobília da cozinha. No inverno é bonança, na seca, lástima. Todos os pensamentos se voltam para o poder da mãe natureza, se o ano é invernoso ou chuvoso. Se invernoso recebe como uma bênção e sabe que está garantida a sobrevivência dos filhos, que, muitas vezes, conhece quanto é ruim a carência ou a falta do feijão, do milho e do arroz. A fartura só chega com o período invernoso que deixa a mesa empinada de prato de canjica, tigela de pamonhas, arroz doce, cuscuz e coalhada. Não tem medo de trovão nem de relâmpago, só teme aos castigos de Deus!
O sertanejo costuma dizer que tendo o feijão, o arroz e o milho, ou seja, o grosseiro, a carne eles se viram de qualquer jeito, na caça atrai o preá ou na pesca, no visgo da barbatana da traíra no anzol. Mas, o bom mesmo é tomar uma bicada de cachaça na venda e saborear um pirão de costela de boi que faz o suor correr na testa quando o cabra da peste está de fraqueza. Ou, então, a buchada de bode com cuscuz. E a galinha de capoeira com arroz de leite. Essas comidas típicas são irresistíveis. Já estou até com vontade de tomar uma cana com torresmo bem tostado. Opa! Não quero convidado. Não, quero! Seria egoísta demais. Ficaria sem graça! Sem a prosa do vizinho não dá!
Enquanto isso, na casa grande que fica ao lado percebe-se a diferença entre o pingo de luz da lamparina da tapera e o candeeiro de gás e as luminárias do casario. O curral que fica ao lado do casarão, de madrugada, ouve-se o mugido do boi, exalando aquele cheiro de esterço molhado misturado com o feno, para, logo em seguida, a ordenha da vaca, cujo leite é tirado e bebido com o sabor do peito da vaca. Os silos abarrotados de feijão, milho e arroz, com uma mesa de fartura regada a queijo de manteiga e coalho, a nata, a manteiga, o leite, além da sobremesa de doces e frutas tropicais. No tempo de debulha é noite de festa e alegria. Formando-se uma imensa roda cercada de moças e rapazes para  o piscar de olhos, o antigo flerte! Depois se tornou paquera; hoje, criou-se o fica; o amanhã será o deixa! A moagem movimenta toda propriedade rural e atrai pessoas da cidade para sugar o mel, tomar caldo de cana e degustar o alfenim.
Já o puxador de cobra para os pés, o sertanejo sofredor, na madrugada, o varão se levanta, acorda a mulher e chama o filho, logo rumando na busca do roçado, carregando a quartinha d’agua na cabeça, a chaleira na lateral do ombro, o cachimbo no bico e a vigilância do cachorro valente. Chegando ao racho debaixo de uma oiticica ou juazeiro prepara o desjejum do café na chaleira acompanhado da tapioca ou broa de milho. Nas costas, traz o saco de farinha, jabá e rapadura.
A figura arrojada do homem forte do sertão, com chapéu de palha na cabeça, o olhar penetrante, rosto enrugado e a pele queimada pelo sol causticante e inclemente dos céus nordestinos. O seu traje faz parte de sua própria representação, a camisa suada e encardida, a calça rasgada no joelho e a sandália de rabicho nos pés. Um facão pendurado no quadril e um trinchete pontuado e amolado. Além do bornal empacotado de fumo de rolo e a caixa de fósforos. O seu peculiar estilo de vida, não perde a mania de comprar fiado na bodega e ir à igreja aos domingos e rezar o terço oferecido ao santo caridoso e santa de devoção, sem faltar o pedido de mandar chuva ao Bondoso São José.
Á tardinha, ao retornar para casa, o banho de cacimba, de açude ou de rio que serve para tirar as mazelas do corpo e renovar as disposições para o trabalho. O jantar um prato fundo de coalhada rente até as beiras misturado com cuscuz e rapa de rapadura para adocicar. A sobremesa é um café bem forte, torrado em panela de barros que atraia como um aroma francês. Já no alpendre acende um cigarro “boró” e tira aquela saborosa tragada que a fumaça sobe à cumeeira da casa deixando tontos os presentes. É um costume. Ninguém pode condenar a tradição do homem sertanejo.
O pôr do sol, paisagismo de raios cintilantes e toda naturalidade; é o cartão postal visto todos os dias. O sol desaparecendo e entrecruzado das duas serras, surgindo um ocaso resplandecente e cheio de enigmas.
À noite, quer seja sentada no alpendre da tapera, quer seja na varanda da casa grande, sentado na preguiçosa de vime ou no tamborete de angico, todos olham para o céu e veem o rutilar das estrelas e encantam-se com o prateado do luar que dá inspiração aos poetas.
E todos vão dormir cheio de convicção de que Deus é realmente misericordioso.
João Pessoa, 11 de outubro de 2016.
*Escritor pombalense e Promotor de Justiça em João Pessoa PB.

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