CLEMILDO BRUNET DE SÁ

Inseparável monark

Onaldo Queiroga
Onaldo Queiroga*

Numa aurora inalcançável havia um menino que acordava ao som do apito da Brasil Oiticica e logo que pulava da rede, montava em sua Monark vermelha e pedalava pelo mundo dos sonhos. Subia e descia ruas, calçadas e praças, sentindo em seu rosto o vento das primeiras aventuras.
Da casa dos avós, guiava sua bicicleta para a Rua do Roque, onde parava na torrefação do Café Dácio. Pedia a bênção do avô Antônio Rocha, ganhava umas moedas e seguia em seu roteiro. Passava pela rua estreita e
logo chegava ao Mercado Público, no bar de Maria de Biró. Ali, bebia uma fanta gelada, conversava com o amigo Cláudio de Biró, passava no relojoeiro, “seu” Edvaldo, comprava uns vidros de relógios para organizar seu time de botão.
De lá, o menino ia ao estúdio do Lord Amplificador, difusoras que marcaram época, pois todos os dias ele ouvia aquele sistema de comunicação acordar Pombal, com uma programação recheada de propagandas, recados diversos e sob a égide do forró nostalgicamente entardeciam o Sertão. A noite chegava, lá estava novamente o Lord falando com seu povo, agora, suavemente.
Com sua bicicleta, o menino seguia até bodega de Cazuza. Falava com Zé Valdo, comia uma mariola e saía rumo à Rua Nova, parando na casa de Hildebrando. Conversa vai, conversa vem, descia até ao armazém do seu Dantinha, onde o amigo Neudo sentado num tamborete, com uma bola de futebol na mão, já escalava seu time para o jogo da tarde, no muro de dona Raimunda.
Com sua inseparável bicicleta transitava livre pelas veredas sertanejas. A cada esquina, descortinava um pedaço novo da vida. O menino não sentia o tempo passar, pois tudo era belo e inocente. Mas se foi o tempo-menino. Hoje adulto, os anos antigos só são vistos no crepúsculo de uma lágrima alegre da memória, desenhada pela saudade de um eterno menino.
 *Escritor pombalense e Juiz de Direito

onaldorqueiroga@gmail.com

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